Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

WALT DISNEY NOS DEIXOU ÓRFÃOS
Perce Polegatto



Nas longínquas terras da Califórnia, enquanto as equipes de um estúdio mágico trabalhavam num ousado projeto que viria a se chamar Fantasia, o bem-sucedido visionário Walter Elias, após muito insistir, conseguira convencer sua mãe a conhecer seu estúdio, com a intenção de mostrar-lhe, em sessão particular, o desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões. Os pais desse artista-empresário, que viria a ser chamado “O Mago da Tela”, não conheciam seus filmes e pareciam não se importar muito com a carreira do filho, que havia saído de casa, ainda adolescente, para se perder na floresta das novas oportunidades. Auxiliado por seu irmão mais velho, Roy, que se tornaria seu braço direito no estúdio, a necessária cabeça pensante voltada para o mundo perigoso das finanças, esse jovem aspirante a desenhista e a diretor de Cinema foi agraciado pela boa estrela da sorte, que acabou coroando seu esforço incansável na busca pela perfeição e pelas inovações técnicas: até hoje, Walter Elias Disney é uma lenda do Cinema.
Flora, sua mãe, nunca tinha entrado num cinema. Filha do mundo sem encantamentos do interior dos Estados Unidos, ela não conseguia ver um longa-metragem inteiro. Por isso, Walter exibiu Steamboat Willie, primeiro curta-metragem sonoro do estúdio, que havia projetado e popularizado o simpático ratinho Mickey. Ao ver o filme, do qual Walter se orgulhava com razão, ao contrário de toda a dinâmica da sucessão de imagens, a mãe não pareceu muito animada. O astro do estúdio, que protagonizaria em seguida um dos episódios mais marcantes de Fantasia, “O Aprendiz de Feiticeiro”, era ninguém menos que Mickey Mouse, criado a pedido de Walter pelo animador Ub Iwerks, seu amigo, depois seu rival, depois seu amigo de novo. O camundongo mais famoso das telas tornara-se um alter ego de Walter, além de seu personagem favorito e mais rentável. “O Aprendiz de Feiticeiro” tinha como fundo musical o belíssimo poema sinfônico de Paul Dukas, o que não impedia que Mickey dissesse alguma coisa de vez em quando. Walter perguntou à mãe o que ela havia achado, afinal. “Não está tão mau”, ela teria respondido. “Mas seria melhor mudar a voz desse ratinho. A voz dele é horrível e parece a de uma menininha.” Ela não sabia que o próprio Walter era o entusiasmado dublador de Mickey.
Esse homem de quase quarenta anos entristeceu-se de maneira anormal. Ficou abatido. Deprimiu-se. Passou uns dias dormindo no estúdio, sem querer falar com ninguém. Flora morreu nesse mesmo ano. Walter mandou cortar as falas de seu personagem principal. Fantasia foi lançado nessa versão. Mickey estava mudo.
Quem nos conta esse episódio é o biógrafo Marc Eliot, em seu livro Walt Disney, O Príncipe Sombrio de Hollywood. Príncipe de Hollywood: seja como for, que bela expressão! Mas esse fim de mundo próximo a Los Angeles nada tinha de um reino encantado. E foi outro mestre da sobrevivência, Charles Chaplin, quem aconselhara o jovem produtor: “Aqui, em Hollywood, todos querem tomar tudo de todos.” Apesar de toda a dura experiência de vida nesse ambiente selvagem, entre fracassos arrasadores e espasmos de sucesso, eis que a crítica à voz de seu simpático ratinho, proferida por uma senhora interiorana, quase aniquila a autoconfiança desse poderoso empresário.
Walter nunca tivera um bom relacionamento com os pais, marcado pela ausência de afeto e por outros desinteresses e distâncias. Isso se refletiu claramente em sua obra, tendo influenciado na escolha de Mary Poppins, dos originais da australiana Pamela Travers, como adaptação cinematográfica do que seria seu canto do cisne, uma história em que ele se reconheceu na figura do menino, Michael. Na primeira filha, Jane, viu a representação de seu querido irmão Roy. O pai austero, na figura do banqueiro, de óbvio nome mr. Banks, e a mãe submissa, pouco interessada nos anseios e na vida real dos filhos, eram os seus pais.
Disney nos legou inúmeros órfãos: Branca de Neve é criada por uma rainha invejosa. Dumbo é filho de mãe solteira. Pinóquio tem um pai, mas não tem mãe. (na história original do italiano Carlo Collodi, era Mestre Cereja o criador de Pinóquio. Antes de atirá-lo ao lixo, entrega-o a Mestre Gepetto dizendo: “Tome, veja o que pode fazer com esse traste.”) Cinderela, além de órfã, é humilhada por sua madrasta e pelas filhas dela. Peter Pan e seus amigos não têm família, moram em cavernas e em buracos de árvores. O jovem Wart, de A Espada Era a Lei, adotado por sir Hector, encontra a figura paterna em seu preceptor, o mago Merlin. Mowgli é abandonado na floresta, tendo sido criado primeiro por lobos, depois por um urso e por uma pantera, pois a selva dos desenhos é rica em amigos leais que se arriscam uns pelos outros.
Mas o fato de que quase todos os personagens centrais de seus filmes sejam órfãos pode também ser a causa da identificação dos adolescentes com essa condição, uma fase em que não mais se vêem na criança e ainda não possuem a autonomia do adulto. Sentem que seus pais não são os mesmos, os que antes tinham de pegar-lhes a mão para atravessar a rua, e não compartilham inteiramente de seu mundo novo por se consolidar. Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta. E preferimos assim.
Disney foi, individualmente, a pessoa que mais ganhou prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar: 25 ao todo. E talvez não soubesse a quem agradecer toda vez que voltava ao palco para recebê-los. Por que não aos talentosos desenhistas de seu estúdio, que – a exemplo dos anõezinhos que ajudaram Branca de Neve – lhe serviram, protegendo-o de sua vida madrasta?

 

Perce Polegatto é professor universitário