Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

CHINATOWN
Pauline Kael



Passado na década de 1930, este thriller nostálgico, no estilo das narrativas de Dashiell Hammett e Raymond Chandler, recorre à história de Los Angeles, especificamente os direitos sobre água e os trambiques imobiliários. Sentimos os conflitos entre os temperamentos do roteirista, Robert Towne, e do diretor, Roman Polanski. Na concepção de Towne, a platéia vai descobrindo a profundidade da corrupção junto com o detetive romântico e temerário J. J. Gittes (Jack Nicholson). Polanski, cujos filmes não deixam nada a que nos agarrar, transforma o material numa extensão de sua visão de mundo: faz a atmosfera de Los Angeles gótica e arrepiante desde o início. O filme nos prende de uma maneira sufocante. Polanski jamais deixa a história se contar por si mesma. É tudo demasiado deliberado, roxo, próprio de pesadelo; tudo laqueado de amarelo, e o mal corre solto. Não importa quem sai machucado, já que todos têm culpa. E, no entanto, a perversão tem uma cara e um fascínio. Há uma famosa história de bastidores do filme. O roteiro acabava originalmente depois que Gittes percebe os horrores sofridos pela mulher que ele amava, a sinuosa (...) Evelyn Mulwray (Faye Dunaway). E então ela mata seu incestuoso e baronial pai (John Huston) para salvar a própria filha de suas garras e ajuda a menina a chegar ao México. Mas Polanski sela o filme com seu sorriso de gárgula. Termina-o com a morte de Evelyn e o triunfo da personagem de Huston, que estuprou a terra, a filha e vai agora corromper a filha da filha. O temperamento de Polanski predomina (e ele parece indiferente a alguns pontos da trama). Mas o de Towne também aparece, sobretudo no Jake Gittes de Nicholson, o herói vulgar que dá ao filme muito de sua comédia: Gittes conta piadas idiotas, daquelas de tapinhas nas costas, e mostra o romantismo por trás de sua esperteza de malandro.
O filme conta com a presença de Polanski como o traiçoeiro bandido “anão”, que saca uma faca e rasga o nariz de Gittes, e Burt Young como o homem que olha as fotos da esposa infiel.
Uma seqüência, A Chave do Enigma (The Two Jakes), dirigida por Jack Nicholson, foi lançada em 1990.

 

Chinatown (idem, 1974, 130')
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Robert Towne
Música: Jerry Goldsmith
Elenco: Jack Nicholson (J. J. Gittes), Faye Dunaway (Evelyn Mulwray), John Huston (Noah Cross), Perry Lopez (Escobar), John Hillerman (Yelburton), Darrell Zwerling (Hollis Mulwray), Diane Ladd (Ida Sessions), Roy Jenson (Mulvihill), Dick Bakalyan (Loach), Joe Mantell (Walsh), Bruce Glover (Duffy), Nandu Hinds (Sophie), Roman Polanski, James O’Rear, James Hong, Beulah Ouo, Jerry Fujikawa, Belinda Palmer, Roy Roberts, Noble Willingham, Elliott Montgomery, Rance Howard, George Justin, Doc Erickson, Fritzi Burr, Charles Knapp, Claudio Martinez, Allan Warnick, John Holland, Jesse Vint, Jim Burke, Denny Arnold, Burt Young, Elizabeth Harding, John Rogers, Cecil Elliot, Paul Jenkins, Bob Golden
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Paramount

 

Este texto foi transcrito do livro 1001 Noites no Cinema (5001 Nights at the Movies, tradução de Marcos Santarrita & Alda Porto, seleção de Sérgio Augusto, São Paulo, Companhia das Letras, 1994, pp. 99-100), de Pauline Kael