Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

CARMILLA
Joseph Sheridan Le Fanu
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti
ilustração: Michael Fitzgerald



CAPÍTULO QUATRO
OS HÁBITOS DE CARMILLA

Disse-lhes que fiquei encantada com minha nova amiga. Havia, contudo, algo nela que não me agradava tanto: ela era uma pessoa muito retraída.
Mas, antes de dizer qualquer outra coisa, vou descrever um pouco de seu físico. Tinha uns centímetros a mais do que a altura média das mulheres. Era esbelta e maravilhosamente graciosa. A não ser por seus gestos lânguidos – muito lânguidos, mesmo –, nada havia em sua aparência que indicasse ser ela uma pessoa enferma. Suas feições eram delicadas e bem-feitas; seus olhos, grandes, negros e brilhantes; seu cabelo... Seu cabelo era longo (chegava à altura de seus ombros) e de um castanho muito vivo... Sim, era de um castanho muito vivo, com alguns toques dourados. Agora, algo que não posso deixar de mencionar é que eu adorava introduzir as mãos debaixo dos cabelos de minha amiga e ficar brincando com eles. Ah! Como eu era inocente! Se ao menos soubesse o que estava para acontecer!
Bem, já lhes falei que minha amiga era muito retraída. Ela nada falava sobre si própria, sua mãe, sua família, sua vida, seus planos... Eu achava isso um absurdo. Queria saber alguma coisa a seu respeito e ficava indignada por ela nada falar, mesmo eu jurando solenemente que não revelaria uma única sílaba sequer do que me fosse dito. Eu não compreendia essa sua atitude. E, com muito custo, consegui que ela me revelasse apenas três coisas – três coisas muito vagas, se querem saber – a seu respeito:
Seu nome era Carmilla;
Sua família era muito antiga e nobre;
Sua casa ficava na direção do leste.
Ela não me disse o nome de sua família... Nem me revelou onde viviam.
Não pensem que eu a importunava constantemente com esses assuntos. Esperava a oportunidade certa e preferia insinuar a forçar as minhas perguntas. Só uma ou duas vezes, na verdade, fiz perguntas diretas. Entretanto, qualquer que fosse minha tática, o resultado era sempre o mais completo fracasso. Mas tenho de acrescentar isto: suas evasivas eram apresentadas com tanta graça, melancolia e apaixonadas declarações de amizade – minha amiga costumava dizer que, um dia, iria me contar tudo – que eu não conseguia ficar muito tempo zangada com ela.
Nessas ocasiões, Carmilla tinha o hábito de passar seus lindos braços em volta de meu pescoço, puxar-me para bem junto dela e, encostando seu rosto no meu, murmurar:
– Seu coraçãozinho, minha querida, está magoado, ferido... O meu também sangra. No arroubo de minha infame humilhação, vivo no calor de sua vida; e você morrerá – morrerá suavemente, mas morrerá – em mim e por mim. Não me julgue cruel. Apenas obedeço à irresistível lei da minha força e fraqueza. Não posso evitá-lo. E, assim como eu me aproximo de você, você irá se aproximar de outros e aprenderá o enlevo desta crueldade, que, no entanto, é amor. Não procure, no momento, saber nada mais sobre mim ou minha família. Apenas confie em mim.
Quando terminava de falar, envolvia-me mais estreitamente em seus braços e beijava-me ternamente o rosto.
Eu não compreendia suas palavras. Apenas desejava libertar-me daqueles loucos abraços, que não eram muito frequentes, devo admitir; porém, minhas energias pareciam desvanecer-se. Sua voz – doce e suave – soava em meus ouvidos como uma canção de ninar; levava-me a um transe do qual eu conseguia me recobrar somente quando ela retirava os braços.
Então, eu não gostava de Carmilla. Sentia uma estranha e tumultuosa excitação, mesclada de uma vaga sensação de medo e repugnância. Minhas ideias não eram claras a seu respeito; tinha, contudo, consciência de sentir por ela um amor que se transformava em adoração e, ao mesmo tempo, repulsa. Sei que isso é paradoxal; no entanto, não consigo expressar os meus sentimentos por Carmilla de outra maneira.
Agora, oito anos depois, escrevo com a mão trêmula e uma recordação confusa e horrível de certos acontecimentos e situações, embora o essencial da história permaneça muito vivo em mim.
Algumas vezes, depois de uma hora de apatia, minha estranha e bela companheira segurava minha mão e apertava-a ternamente. Depois, enrubescia ligeiramente e fitava-me com um olhar vago e ardente. E começava a respirar tão depressa que seu vestido levantava-se e abaixava-se sem parar. Era como o arfar de um amante... na hora do sexo. Isso me embaraçava; era, a um só tempo, odioso e envolvente.
E ela me puxava para si – seu rosto, nessas ocasiões, assemelhava-se ao de um animal esfomeado – e beijava-me, dizendo:
– Você é minha, será minha; você e eu seremos uma só, para sempre.
– Somos nós parentes? – Perguntava eu, trêmula, enquanto ela se deixava cair numa cadeira. – Que quer você dizer com tudo isso? Talvez eu lhe recorde alguém a quem você amou; mas essas coisas que faz comigo não estão certas. Elas me aborrecem. Eu não a reconheço e também não me reconheço, quando você... quando você me abraça, me beija e me acaricia. E não entendo o que você me diz.
A única coisa que ela fazia era suspirar.
Eu procurava em vão uma explicação satisfatória para esse comportamento de Carmilla, pois não poderia classificá-lo como fingimento. Era, indiscutivelmente, a liberação momentânea de emoções e instintos reprimidos. Não seria ela, a despeito das informações dadas pela mãe, sujeita a breves crises de insanidade?  Talvez se lembrasse de algum rapaz que havia amado às escondidas e pensasse que eu era ele. Era uma hipótese...
Por outro lado, entre esses ardentes momentos, havia grandes intervalos de rotina, de alegria, de cogitações melancólicas, durante os quais – com exceção dos instantes em que seus olhos me seguiam (eles pareciam querer me comer) – era como se eu nada significasse para ela.
Sob certos aspectos, seus hábitos eram por demais estranhos. Costumava descer muito tarde, geralmente nunca antes de uma hora da tarde. Tomava uma xícara de chocolate e nada comia. Saíamos, então, para um passeio; mas ela logo se sentia cansada, o que nos obrigava a voltar ao castelo ou a sentar num dos bancos colocados sob as árvores. Essa prostração física não condizia com seu espírito, já que era muito conversadora e inteligente.
Fazia, às vezes, alusão à sua família, que tinha hábitos totalmente diferentes dos nossos e devia habitar uma região muito mais remota do que eu imaginara a princípio.



CAPÍTULO CINCO
UM ACESSO DE RAIVA DE CARMILLA

Uma tarde em que Carmilla e eu estávamos sentadas num banco, passou por nós um enterro. Era o de uma linda jovem (eu a tinha visto algumas vezes), filha de um guarda florestal. O pobre homem caminhava atrás do caixão e estava completamente desolado, uma vez que ia enterrar sua única e adorada filha. Mais atrás, vinham alguns camponeses, cantando hinos fúnebres.
Levantei-me respeitosamente e comecei também a cantar o hino que eles entoavam tão docemente.
Carmilla puxou meu braço rudemente, e eu me virei surpresa e a encarei.
– Você não percebe que isso é dissonante? – Perguntou ela.
– Não, pelo contrário – repliquei, aborrecida com a interrupção. Fiquei também embaraçada, porque as pessoas que iam no cortejo podiam notar o que estava acontecendo e ficar ressentidas. Por isso, recomecei a cantar.
– Você fere meus ouvidos! – Exclamou Carmilla, tapando os ouvidos com seus dedos pequenos. – Eu detesto funerais! Ora, você tem de morrer...  Todos têm de morrer. Vamos! Vamos para casa!
– Tenha um pouco de respeito pela pobre garota...
– Ter respeito por ela? Eu nem a conheço! Além do mais, não me preocupo com camponeses!
– Essa jovem é aquela que, há uns quinze dias, disse ter visto um espírito, um fantasma... Desde então, começou a definhar; e, ontem, deu seu último suspiro.
– Não me fale de fantasmas! Se você continuar a falar sobre eles, não dormirei à noite.
– Espero que não esteja vindo por aí nenhuma peste ou febre – continuei. – Na semana passada, a mulher do guardador de porcos morreu. Ela acordou certa noite, gritando que alguma coisa estava lhe apertando a garganta. Papai diz que essas visões horríveis acompanham alguns tipos de febre. A mulher estava boa, quando se deitou... E, em menos de uma semana, morreu. Deve ser realmente alguma peste...
– Bem, o funeral da camponesa já passou; e nossos ouvidos não serão mais torturados com aquele hino. Isso tudo me deixou nervosa. Sente-se aqui, a meu lado, e segure minha mão... Aperte-a com força...
Havíamos andado um pouco e chegado a outro banco.
Ela se sentou. Seu rosto havia sofrido uma transformação: tinha se tornado lívido. E Carmilla tremia toda... como se seu corpo estivesse ardendo em febre. Todas as suas energias pareciam concentradas em dominar um ataque de nervos. Por fim, soltou um grito e acalmou-se.
Aos poucos, melhorou e, talvez para dissipar a má impressão que o “espetáculo” havia deixado em mim, mostrou-se ainda mais conversadora e animada.
Voltamos juntas para casa.
Carmilla nunca mais teve um acesso igual àquele. Porém, uma vez, testemunhei um de seus ataques de raiva. Vou lhes contar, agora, como foi.
Ela e eu estávamos olhando por uma das grandes janelas da sala de visitas, quando vimos, atravessando o pátio, um andarilho que costumava visitar o castelo duas ou três vezes por ano. Ele era corcunda. Tinha barba totalmente preta e, ao sorrir, deixava à mostra todos os dentes. Usava uma roupa de camurça, um chapéu grotesco e um cinto de couro, do qual pendia toda espécie de objetos. Às costas, carregava uma lanterna mágica e dois sacos que eu conhecia muito bem. Num deles, havia uma “salamandra”; no outro, uma “mandrágora”. Eram feitos de partes de macacos, papagaios, esquilos, peixes e ouriços secos. O corcunda havia emendado e costurado todas as partes com grande habilidade. E ele adorava mostrar a “salamandra” e a “mandrágora” para todos que cruzavam seu caminho e ver o efeito que elas causavam nas pessoas. Trazia também um violino, uma caixa com apetrechos de magia e um cajado. Seu companheiro era um enorme vira-lata, que havia parado junto à ponte levadiça e começara a uivar lugubremente.
O andarilho caminhou até o meio do pátio, tirou o chapéu e cumprimentou-nos. Falava um Francês execrável e um Alemão ainda pior. Em seguida, voltou a colocar o chapéu na cabeça, pegou o violino e pôs-se a tocar uma música alegre. Começou a dançar, o que me fez rir, apesar dos uivos do cão. Alguns minutos depois, parou de tocar. Então, segurando o chapéu com a mão esquerda e fazendo salamaleques, aproximou-se da janela e fez propaganda de suas habilidades e de todas as curiosidades e divertimentos que trazia e que punha à nossa inteira disposição.
– Se as senhoritas quiserem, podem comprar um amuleto contra os vampiros que assolam a floresta e que, como lobos, estão atacando muito nas redondezas – anunciou ele. – Está a morrer gente por todos os lados, e meu amuleto não falha nunca! Não falha, mesmo! Eu garanto! Só terão de prendê-lo no travesseiro e poderão, depois, rir na cara do vampiro.
O amuleto consistia numa tira retangular de pergaminho com inscrições e diagramas cabalísticos. Carmilla comprou imediatamente um, e eu fiz o mesmo.
O homem não cessava de nos olhar. De repente, seus olhos – eles eram negros e muito penetrantes – pareceram descobrir alguma coisa muito interessante.
– Escute, minha jovem – falou, dirigindo-se a mim, enquanto pegava uma lima que trazia amarrada no cinto. – Uma das profissões que exerço é a de dentista. – Interrompeu o que dizia, voltou-se na direção do cão e gritou: – Maldito cão! Que o diabo o leve! Silêncio, animal! Ele uiva tanto, que não deixa escutarem o que digo. – Voltou a me olhar. – A jovem a seu lado tem caninos muito longos e pontiagudos como agulhas. Pude ver perfeitamente. Acredito que ela deve ficar incomodada com isso. Mas tenho aqui a solução: uma lima. E, se a jovenzinha quiser, poderei arredondá-los. Ficarão iguais aos demais... – Encarou Carmilla. – Que foi? Aborreci a senhorita? Ofendi-a?
Minha amiga, muito zangada, afastou-se da janela, gritando:
– Como se atreve esse vagabundo a nos insultar dessa forma? Onde está seu pai? Vou pedir que lhe aplique um bom corretivo. Se fosse em nosso castelo, meu pai mandaria que ele fosse amarrado numa árvore e lhe daria umas dez chicotadas. Depois, seria marcado no peito com um ferro em brasa. Sujeitinho mais desaforado!
Carmilla sentou-se numa cadeira e logo recobrou a calma, esquecendo o corcunda e suas maluquices.



CAPÍTULO SEIS
AS IDEIAS DE CARMILLA

Naquela noite, após o jantar, meu pai contou-nos que havia outro caso muito semelhante aos anteriores: a irmã de um jovem camponês, cuja casa ficava a apenas uma milha de distância do nosso castelo, adoecera. Dizia ter visto um fantasma e, agora, estava enfraquecendo rapidamente.
– Isso é assustador! – Exclamou Carmilla.
– Como? – Indagou meu pai.
– Imaginar coisas...
– Nós estamos nas mãos de Deus – afirmou papai. – Nada acontece sem Sua permissão, e tudo terminará bem para aqueles que O amam. Ele é nosso criador; Ele nos fez a todos e cuidará de nós.
– Criador?! – Replicou Carmilla. – Vocês são estúpidos, falando em Deus! Ora, todas as coisas provêm da Natureza! Todas as coisas no céu, na terra e debaixo da terra agem e vivem como a Natureza determina. Pelo menos, penso assim.
– O médico prometeu vir hoje aqui – informou meu pai, após um silêncio constrangedor. – Quero saber o que ele pensa de tudo isso. Quero também que ele diga o que devemos fazer.
– Médicos nunca me fizeram nenhum bem – falou Carmilla.
– Já esteve doente? – Perguntei.
– Sim. E você nunca esteve tão doente como eu já estive.
– Foi há muito tempo?
– Eu era muito nova... Mas não falemos disso agora. Você não desejaria magoar sua amiga, não é?
Carmilla olhou languidamente em meus olhos e, passando ternamente o braço em volta de minha cintura, conduziu-me para fora da sala. Meu pai continuou no mesmo lugar.
– Por que seu pai gosta de nos amedrontar? – Reclamou Carmilla, com um suspiro e um pequeno estremecimento, quando chegamos a outra sala.
– De onde você tirou essa ideia? Papai nunca pensaria em amedrontar qualquer uma de nós duas...
– Está com medo, querida? – Indagou Carmilla, mudando de assunto.
– Teria até muito, se pensasse que pudesse ser atacada como essas pobres mulheres foram.
– Tem medo de morrer?
– Sim, como todo mundo...
– Encontrei na biblioteca de seu pai diversos volumes da portentosa Histoire Naturelle, organizada pelo Conde de Buffon. E, num deles, li sobre as borboletas. Como você deve saber, antes de se tornarem um belíssimo inseto, elas são lagartas e crisálidas. Acredito que somos como as borboletas. Temos uma fase lagarta, quando meninas. Depois, na adolescência, atingimos a fase crisálida. Por fim, chegamos à fase borboleta, ao desabrocharmos e nos tornarmos mulheres... – Minha amiga fez uma pausa, antes de falar: – Pela sua cara, percebo que está se perguntando a razão de eu lhe dizer essas coisas... É que, na minha opinião, tudo no mundo sofre uma evolução, ou melhor, uma transformação. Inclusive a morte é uma transformação. Por isso, não deve temê-la; e espero que, no momento em que estiver dando seu suspiro final, eu esteja a seu lado. Daí, ficaremos juntas para sempre!
Em seguida, conversamos sobre outras coisas. E, mais tarde, chegou o médico – ele era um homem inteligente e tinha uns sessenta anos de idade –, que conversou durante algum tempo com meu pai.
– Admiro um homem sábio como o senhor – ouvi meu pai dizer, ao sair da sala onde conversara a sós com o doutor.
– Devo lembrá-lo – disse o médico – que vida e morte são ainda um mistério para nós. Pouco sabemos acerca delas.
Os dois se afastaram, e não pude ouvir mais nada. Na época, não soube o que o médico conversou com meu pai; mas, agora, acho que já tenho uma ideia...

 

continua no próximo número