Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

AVENTURAS DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS É LEITURA APENAS PARA CRIANÇAS?
Marco Aurélio Lucchetti



No século 19, foram escritas na Grã-Bretanha algumas obras que são verdadeiros clássicos da literatura inglesa e da literatura mundial: Frankenstein (1818), de Mary Shelley; Ivanhoé (1819), de Walter Scott; Memórias e Confissões Íntimas de um Pecador Justificado (1824), de James Hogg; Oliver Twist (1838); de Charles Dickens; Jane Eyre (1847), de Charlotte Brontë; O Morro dos Ventos Uivantes (1847), de Emily Brontë; Feira das Vaidades (1848), de William Makepeace Thackeray; Os Heróis do Mar (1855), de Charles Kingsley; A Mulher de Branco (1860), de Wilkie Collins; Silas Marner (1861), de George Eliot; As Minas do Rei Salomão (1885), de H. Rider Haggard; O Médico e o Monstro (1886), de Robert Louis Stevenson; Um Estudo em Vermelho (1887), de Arthur Conan Doyle; O Retrato de Dorian Gray (1890-1891), de Oscar Wilde; A Indigna (1891), de Thomas Hardy; O Livro da Jângal (1894-1895), de Rudyard Kipling; A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells; Drácula (1897), de Bram Stoker; O Pecado de Liza (1897), de William Somerset Maugham; Lord Jim (1900), de Joseph Conrad; e, entre muitos outros, Aventuras de Alice no País das Maravilhas (ou simplesmente Alice no País das Maravilhas), de Lewis Carroll.
Em geral, no Brasil, as pessoas consideram Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Alice’s Adventures in Wonderland, no original) leitura infanto-juvenil. Isso é um grande erro. O livro pode, ou melhor, deve ser lido (desde que numa tradução confiável; e nunca em versões adaptadas, que simplificam e desvirtuam o texto original) por crianças e adolescentes, já que é LITERATURA (neste momento, estou no local que o escritor norte-americano John Steinbeck deu o nome de YURRP; e, aqui, os yurrpanos sempre escrevem esta palavra em letras maiúsculas) da melhor qualidade. Entretanto, seu público alvo são os adultos.
Abre um parêntese.
Na introdução da primeira edição de The Annotated Alice (1960), Martin Gardner (1914-2010), um dos maiores especialistas em Lewis Carroll e sua obra, escreveu: “É apenas porque adultos – cientistas e matemáticos em particular – continuam a apreciá-los que os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada.”
Não concordo com essa afirmação. Não são apenas cientistas e matemáticos (Martin Gardner, que, durante muitos anos, foi editor de problemas matemáticos da revista Scientific American, escreveu diversas obras sobre Matemática e Lógica) que apreciam os dois livros de Alice, Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice encontrou lá (Through the Looking-Glass and what Alice found there, no original). Esses livros, duas obras de extrema vanguarda – como bem disse o professor universitário Marshall McLuhan, em Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem (1964): “Lewis Carroll lançou o século 19 num mundo de sonho (...). (...) construiu a fantasia de um espaço-tempo descontínuo que antecipa Kafka, Joyce e T. S. Eliot. (...) deu aos confiantes vitorianos um jocoso antegosto do espaço-tempo einsteiniano” –, são lidos e apreciados por todos os adultos que buscam uma história inteligente (e encontrar uma história inteligente não está nada fácil nesta nossa época, em que prolifera nos meios de comunicação a mais absoluta imbecilidade e a total falta de criatividade). São lidos e apreciados por todos que desejam ler um texto escrito numa linguagem que seja, a um só tempo, brilhante e simples. São lidos e apreciados por aqueles que ainda não perderam a capacidade de se divertir e emocionar-se com uma obra literária. E é em razão dessas pessoas, que, certamente, não são poucas, que “os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada”. São essas pessoas que tornam a menina Alice uma personagem eterna... uma personagem tão eterna quanto o detetive consultivo Sherlock Holmes e o vagabundo Carlitos.
Fecha o parêntese.

“As numerosas e divertidíssimas ‘loucuras’ dos dois livros de Alice implicam questões de lógica (com uso freqüente do absurdo), física (antecipando, em relação às dimensões de tempo e espaço, o horizonte espantoso da ciência contemporânea) e filosofia. Neste último caso estão o enigma da identidade pessoal (tema que veio a se constituir num dos assuntos centrais da filosofia contemporânea), controvérsias sobre ética (portanto sobre valores associados ao nosso comportamento), disputas sobre linguagem (o problema do sentido das palavras, que aparece na discussão com a Duquesa, é central na lingüística e na filosofia), a relação corpo-mente (uma das preocupações mais intrigantes da filosofia em todos os tempos) etc.”
Francisco Achcar

Voltando ao que eu estava dizendo...
O público alvo de Aventuras de Alice no País das Maravilhas são os adultos.
Então, por que, no Brasil, geralmente as pessoas acham que esse livro é leitura para crianças e adolescentes?
Para responder a essa pergunta, é necessário antes falar um pouco de Lewis Carroll, que era, na verdade, um pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson (1832-1898).
Nascido em Daresbury, na região de Cheshire, Charles Lutwidge Dodgson formou-se, em 1854, em Ciências Matemáticas, no Christ Church College, a faculdade que foi a alma mater de Oxford; já no ano seguinte, tornou-se professor de Matemática dessa célebre e prestigiosa instituição de ensino.
Terceiro dos onze filhos de um pastor anglicano, ele nunca se casou. Era gago e extremamente tímido; porém, sua gagueira e sua timidez desapareciam, quando ficava a sós com uma criança, ou melhor, com uma menina.
Abre um novo parêntese.
Charles Lutwidge Dodgson sempre manifestou grande afeição por garotinhas (nunca suportou a companhia dos meninos); e seu passatempo preferido – passatempo preferido esse que talvez lhe tenha proporcionado as maiores alegrias na vida – consistia em diverti-las.
Fecha esse novo parêntese.
Pode-se dizer que, nessas ocasiões, Charles Lutwidge Dodgson saía de cena e surgia Lewis Carroll, que tinha o hábito de fotografar suas jovens amiguinhas (inclusive, fotografou algumas delas nuas, com a permissão de suas mães, é claro).

“Dodgson foi (...) um dos primeiros grandes fotógrafos amadores, sendo considerado por Helmut Gernsheim, autor do livro Lewis Carroll: Photographer (1949), como ‘provavelmente o mais famoso retratista dos meados da era vitoriana’, depois de Julia Margaret Cameron, e como ‘o mais proeminente fotógrafo de crianças do século 19’.”
Franz Rottensteiner

Dodgson/Carroll fotografou inúmeras meninas, entre as quais Alice Pleasance, Lorina Charlotte e Edith Mary, filhas do então decano de Christ Church, Henry George Liddell.
Ele as conheceu em 1856. E, num dia quente de verão, no começo de julho de 1862, acompanhado por um amigo seu, reverendo Robinson Duckworth, levou-as para uma excursão de barco pelo Rio Tâmisa.
Nesse passeio, que começou perto de Oxford e terminou na aldeia de Godstow, foi concebido Aventuras de Alice no País das Maravilhas: a fim de entreter as irmãs Liddell (Alice Pleasance tinha, na época, dez anos; Lorina Charlotte, treze; e Edith Mary, oito), Lewis Carroll contou-lhes as proezas de uma menina espevitada que se mete na toca de um coelho. Ele inventou a história, enquanto remava; mais tarde, na noite daquele mesmo dia, escreveu-a inteira, tal como a tinha contado para as meninas.

“Havíamos remado juntos muitos dias naquelas águas tranqüilas – as três pequenas donzelas e eu –, e muitos contos de fadas haviam sido improvisados em benefício delas (...); no entanto, nenhuma dessas muitas histórias foi escrita (...).”
Lewis Carroll

“A maior parte das histórias do sr. Dodgson nos foi contada em expedições pelo rio até Nuneham ou Godstow (...). Acredito que o início de Alice foi contado numa tarde de verão em que o sol queimava tanto que havíamos desembarcado nas campinas (...), abandonando o barco para nos refugiarmos na única nesga de sombra à vista, que era debaixo de feno recém-empilhado.”
Alice Pleasance Liddell

Dois anos após esses acontecimentos, Lewis Carroll presenteou Alice Pleasance Liddell com um exemplar – escrito à mão e ilustrado por ele mesmo – de Alice’s Adventures Underground, que narra as façanhas de Alice, tal como tinham sido contadas naquela tarde quente de verão. Na mesma época, ele estava reescrevendo a história, acrescentando-lhe novos capítulos. E, em 1865, foi lançada a primeira edição de Alice’s Adventures in Wonderland, com ilustrações de John Tenniel (1820-1914).
Agora, retornando à questão de, no Brasil, Aventuras de Alice no País das Maravilhas ser freqüentemente considerado leitura para crianças e adolescentes...
Há, pelo menos, três razões para isso:
1 – a história de Alice “nasceu” como narrativa oral, para divertir três meninas, e foi escrita a pedido de uma delas;
2 – é extremamente difícil para os adultos considerarem como uma obra para maiores de dezoito anos um livro que narra as façanhas de uma menina num mundo imaginário, um lugar onde acontecem os maiores absurdos, um lugar onde não prevalece a lógica que conhecemos, um lugar onde os animais (coelhos, camundongos, pássaros, lagartos, peixes, gatos, lebres, tartarugas) falam, um lugar governado por cartas de baralho;
3 – a maioria das pessoas conhece Aventuras de Alice no País das Maravilhas por meio de versões, adaptações e pseudotraduções – versões, adaptações e pseudotraduções essas que apenas empobreceram e tornaram sem graça e simplório o rico texto de Lewis Carroll – destinadas ao público infantil.
Para finalizar, quero dizer que existem em Português algumas (poucas) ótimas traduções de Aventuras de Alice no País das Maravilhas. E duas delas merecem destaque: a de Sebastião Uchoa Leite (São Paulo, Fontana/Summus, 1977), que, segundo Isabel De Lorenzo (Alice no País das Maravilhas, São Paulo, Objetivo/Sol, 2000), foi “a pioneira na proposta de recriação não só da fábula (...), mas também dos complexos jogos de linguagem que constituem o principal sabor” do texto de Lewis Carroll; e a de Maria Luiza X. de A. Borges (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002).
Lendo qualquer uma dessas traduções, o leitor logo perceberá a imensa criatividade de Lewis Carroll, que, utilizando-se do nonsense, fez, em Aventuras de Alice no País das Maravilhas, uma crítica divertida e mordaz às normas naturais que regem nossa vida e aos costumes da era vitoriana. Perceberá igualmente, como tão bem afirmou Sebastião Uchoa Leite, que o livro perdura “pela multiplicidade de interpretações que possibilita”.