Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

AO SOM DE HENRY MANCINI
Aurélio P. Cardoso



“Mancini é um fundador de tendências. Seus arranjos e composições são exclusivamente seus.”
Contracapa do disco Uniquely Mancini (RCA Victor, 1963)

 

Início de uma ensolarada tarde de domingo. Caminhava eu por uma rua do Jardim Paulista, em Ribeirão Preto, sob um sol abrasador e escaldante (a temperatura beirava os quarenta graus, e o asfalto queimava os pés). Sem o barulho medonho do trânsito dos dias de semana, com suas motos e carros esganiçados, dava para se ouvir, vindo de uma casa, o som de uma música tocada divinamente por um piano.
Ao me aproximar da casa, percebi que a música era da trilha sonora do filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961).
Baseado em romance de Truman Capote, Bonequinha de Luxo foi dirigido por Blake Edwards e estrelado por Audrey Hepburn, símbolo eterno de elegância e charme nas telas, e George Peppard, o Brad Pitt da época.
Deixei de caminhar e fiquei ali, parado debaixo de uma generosa sombra na calçada, ouvindo e assoviando os acordes de uma das mais belas canções do Cinema, “Moon River”, composta por Henry Mancini (música) e Johnny Mercer (letra).
De ascendência italiana (seus pais emigraram de Abruzzi, região da Itália central), Henry Mancini (Enrico Nicola Mancini, 16 de abril de 1924-14 de junho de 1994) nasceu nos Estados Unidos, mais precisamente em Cleveland, no estado de Ohio, e iniciou sua carreira artística como pianista e arranjador da Glenn Miller Orchestra. E, a partir de 1958, ao compor a trilha sonora de A Marca da Maldade (Touch of Evil, dirigido por Orson Welles), destacou-se como compositor de músicas para filmes.
Durante mais de trinta anos, Henry Mancini compôs aproximadamente oitenta trilhas sonoras de filmes e um grande número de músicas para séries e minisséries de TV; gravou cerca de noventa Lps; e ganhou vinte prêmios Grammy e quatro prêmios Oscar (dois deles pela trilha sonora de Bonequinha de Luxo e a canção “Moon River”).
Henry Mancini tinha um estilo único: mesclava em suas composições o Jazz aos ritmos pop – quem não se lembra, por exemplo, de “Baby Elephant Walk”, que compôs para a trilha sonora do filme Hatari! (idem, 1962) –, criando uma conotação de similaridade com a Bossa Nova. Assim, ele foi um dos primeiros compositores de Hollywood a criar trilhas sonoras genuinamente americanas, abrindo caminho para outros músicos (como Burt Bacharach, Quincy Jones e Lalo Schifrin), que surgiram nos anos 1960.
Foi nos meados da década de 1970 que conheci a música de Henry Mancini. E isso aconteceu quando assisti a um dos filmes cuja trilha sonora era de sua autoria: o romântico e trágico Os Girassóis da Rússia (I Girasoli, 1970), que teve direção do mestre do Neo-Realismo Italiano, Vittorio de Sica, e trouxe Sophia Loren e Marcello Mastroianni nos principais papéis. Depois, passei a ouvir e admirar pelo rádio algumas composições de Mancini, tocadas no Disco Tela, programa apresentado pelo saudoso Waldice Marcel e transmitido, nas manhãs de domingo, pela Rádio 79. E há algum tempo conheci um dos maiores fãs e conhecedores da obra de Mancini: Mitch Mantoani, que mora em Brodowski e que tem um acervo monumental (são centenas de Lps, CDs importados, fitas VHS e DVDs) de trilhas sonoras do maestro.
Numa de nossas conversas, Mitch Mantoani me contou que se tornou fanático pelas músicas de Mancini após assistir a Bonequinha de Luxo. Aliás, foi esse filme que firmou a profícua parceria de Mancini com o diretor, produtor e roteirista Blake Edwards.
Henry Mancini compôs a trilha sonora de outros 27 filmes dirigidos por Blake Edwards: Escravas do Medo (Experiment in Terror, 1962), Vício Maldito (Days of Wine and Roses, 1962), A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther, 1964), Um Tiro no Escuro (A Shot in the Dark, 1964), A Corrida do Século (The Great Race, 1965), Papai, Você foi Herói? (What Did You Do in the War, Daddy?, 1966), Gunn (idem, 1967), Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, 1968), Lili, Minha Adorável Espiã (Darling Lili, 1970), A Volta da Pantera Cor-de-Rosa (The Return of the Pink Panther, 1975), A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther Strikes Again, 1976), A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (The Revenge of the Pink Panther, 1978), Mulher Nota 10 (10, 1979), S.O.B. (idem, 1981), Vitor ou Vitória? (Victor/Victoria, 1982), A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Trail of the Pink Panther, 1982), A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa (Curse of the Pink Panther, 1983), Meu Problema com as Mulheres (The Man Who Loved Women, 1983), Uma Tremenda Confusão (A Fine Mess, 1986), Assim É a Vida (That’s Life, 1986), Encontro às Escuras, 1987), Assassinato em Hollywood (Sunset, 1988), O Anjo Detetive (Justin Case, 1988; filme feito para a TV), As Confusões de um Sedutor (Skin Deep, 1989), Peter Gunn (idem, 1989; filme feito para a TV), Swith – Trocaram Meu Sexo (Switch, 1991) e O Filho da Pantera Cor-de-Rosa (Son of the Pink Panther, 1993).
Vale destacar que talvez, em toda a História do Cinema, apenas a parceria Ennio Morricone-Sergio Leone se iguale a união entre Henry Mancini e Blake Edwards. União esta que teve início em 1958, quando Mancini compôs as músicas para Peter Gunn, série de TV criada por Edwards.

“Numa indústria muitas vezes citada como ‘canibalesca’, varrida como é por constantes mudanças e imprevisíveis acontecimentos, nós da Spartan Productions vimo-nos frente à imperiosa necessidade de algo genuinamente novo no teatro de televisão. Quando a idéia para PETER GUNN ainda se achava em gestação, a pergunta vital que existia era esta: ‘Como diferenciarmos PETER GUNN das outras séries de Aventura e Mistério?’
Já contávamos com muitos ingredientes valiosos; mas o que estava faltando era um certo elemento distintivo que dotasse esta série de algo extraordinário, algo superlativo. Ocorreu-me então – JAZZ. Se pudéssemos usar a música como parte integrante da ação dramática, fundindo o fio da história com a partitura, teríamos qualquer coisa realmente notável.
Mantendo o fundo jazzístico e a música descritiva durante o desenrolar da série, durante as 39 apresentações, creio firmemente que demos ao programa uma identificação positiva, para não falarmos no fato de termos chamado a atenção dos telespectadores para esta importante forma musical.
Na qualidade de criador do espetáculo, naturalmente fiz questão de empregar música ‘ao vivo’ durante toda a série. No presente caso, a necessidade estética foi satisfeita pelo fato de que muitos dos maiores músicos de Jazz do país podem ser encontrados na área de Hollywood – oportunidade ideal para se escolher a dedo os mais imaginativos jazzmen. Para conseguirmos o fundo musical desejável, precisávamos também de um compositor com raízes no idioma jazzístico, um compositor que pudesse interpretar ação dramática na linguagem do Jazz moderno. Henry Mancini foi o compositor escolhido.
‘Hank’ Mancini, de apenas 34 anos de idade, já havia composto para filmes como The Benny Goodman Story (1955), Touch of Evil e The Glenn Miller Story (1954).  Por sua contribuição a este último foi escolhido como candidato a um dos prêmios da Academia.”
Blake Edwards, na contracapa do disco The Music from Peter Gunn (RCA VICTOR, 1959)


Para finalizar, resta dizer que, todo domingo, procuro passar naquela mesma rua e fico tentando escutar algum som de piano que, vindo daquela casa, exalte a música de Henry Mancini; mas nunca mais ouvi aqueles acordes. Portanto, acho que vou ter de bater na porta e pedir: “Toque novamente o tema de Bonequinha de Luxo.” Porque é um prazer escutar, numa tarde quente de domingo em Ribeirão Preto, “Moon River” ao piano.

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, historiador, crítico e ativista cultural da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim