Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

WYATT EARP
José Emilio Rondeau



Hollywood já contou repetidas vezes a saga de Wyatt Earp, o homem da Lei mais famoso do Velho Oeste.
Nascido em 1848 em Illinois, Earp fez sua fama a partir de 1875, como “policial” de cidades como Dodge City (Kansas), onde se tornou amigo de pistoleiros famosos – entre eles Doc Holliday e Bat Masterson. Mas entrou de fato para a História em Tombstone, Arizona, onde vários membros de sua família haviam se estabelecido (seu irmão Virgil era o xerife local) e onde, em 1881, uma longa rivalidade entre o clã Earp e um bando fora-da-lei se resolveu no sangrento tiroteio do O.K. Corral. A batalha gerou ainda várias mortes nos anos seguintes, valendo a Earp uma acusação de assassinato (ele se esquivou dessa acusação vagando pelo Oeste como apostador, especulador, policial e garimpeiro; e morreu em 1929).
Como eu disse, Hollywood contou inúmeras vezes a história de Wyatt Earp. Desta vez, no entanto, o diretor Lawrence Kasdan acredita ter feito um filme “historicamente correto”, repleto de detalhes, que mostra não somente o lado heróico do personagem mas também “seus defeitos, seu lado humano”. Com seu companheiro de longa data, Kevin Costner, no papel-título, Kasdan espera que o mundo ainda goste de filmes como ele crê que este é: épico.
Wyatt Earp é longo e lento – você sente passar va-ga-ro-sa-mente as três horas e dez minutos do filme. Ele testa a paciência, o interesse e a sensibilidade do público dos anos 1990 com um trabalho de pretensões épicas: uma versão sombria, embora historicamente acurada, da vida de um dos personagens mais famosos do Velho Oeste. Mas o filme põe à prova também a visão do diretor Lawrence Kasdan e a capacidade de Kevin Costner de dar corpo e vida a essa visão.
No campo meramente técnico, Wyatt Earp já é um filme difícil de fazer, pois cobre acontecimentos ao longo de quinze anos nas vidas de 130 personagens (...). É um monte de gente entrando e saindo de cena – desde o pai do clã Earp (Gene Hackman) ao melhor amigo de Wyatt, Doc Holliday (Denis Quaid, o melhor ator do filme).
Mas a vontade de reescrever a História e a seriedade autocongratulatória de Kasdan revestem tudo de uma aura de “importância”, que faz do filme uma experiência pouco compensadora. Costner tem a idade e a capacidade dramática para ser Wyatt Earp em quase todas as suas fases; porém, o roteiro maçudo e pesado deixa enxergar pouco mais do que um homem da Lei cheio de cismas. O homem atormentado e complexo que se pretendia mostrar é apenas sugerido.

 

Wyatt Earp (Wyatt Earp, 1994, 191')
Direção: Lawrence Kasdan
Roteiro: Dan Gordon & Lawrence Kasdan
Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman, Jeff Fahey, Mark Harmon, Michael Madsen, Catharine O’Hara, Isabella Rossellini, Bill Pullman, JoBeth Williams, Tom Sizemore, Annabeth Gish, Betty Buckley
Disponível no Brasil em DVD (duplo)
Distribuidora: Warner

 

Este texto foi transcrito do número 87 da revista Set (São Paulo, Azul, setembro de 1994, pp. 31-33)