Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME VIVA MARIA



Brigitte Bardot: PAF! (ela imita o som de uma palmada) Eu não me aborreci com o filme. Nem Jeanne Moreau. A coisa toda deleitou-me. Eu gosto muito de Jeanne. Talvez você possa dizer que somos faces diferentes da mulher ideal.

Jeanne Moreau: Brigitte chegava sempre atrasada ao set. Um dia, pedi que me avisasse cada vez que fosse se atrasar, para que eu também pudesse dormir mais.

Narceu de Almeida Filho: Jeanne Moreau, naturalmente, foi Maria. E Brigitte Bardot, evidentemente, foi a outra Maria. O confronto entre as duas despertou enorme curiosidade e foi chamado, entre outras coisas, de “duelo entre o sexo e o talento”, “batalha da sensualidade contra a sensibilidade”. Lutando fora de seu terreno, Moreau foi gravemente prejudicada. BB e seu esplendor físico ganharam a parada, foi o veredito da maioria.

Jean Delmas: Encontramo-nos na república fictícia de San Miguel, por volta de 1900. Das duas Marias, uma, Jeanne Moreau, trabalhou sempre no music-hall. Precisamente no momento em que sua parceira acabou de se suicidar, a Fortuna apresenta-se sob os traços da outra Maria, Brigitte Bardot; esta Fortuna tem, a princípio, a cara mal lavada, os cabelos desgrenhados de uma jovem que entra na roulotte para roubar e exige de comer de faca empunho. Esta Maria-Brigitte (...) é a filha de um revolucionário irlandês, fugidos ambos do seu país de origem. Não sabe dançar, nem cantar (...). Tudo isto sabe muito bem Maria-Jeanne e pode ensiná-lo à outra, segundo as boas regras. Maria-Brigitte é a paixão desregrada; mas tudo o que ela sabe fazer e pode ensinar (...) é o que o pai lhe ensinou, quando era pequenina: fazer explodir bombas. (...) As bombas, la revolución, é tudo o que Maria-Brigitte pode ensinar a Maria-Jeanne; mas não é que ao mesmo tempo ela dá um novo significado ao canto, à dança, ao amor? As duas Marias (...) deslumbram as populações, inventam o strip-tease e (...) chegam diante duma aldeia onde os soldados do ditador de plantão se encontram em operação de limpeza, matando e queimando. E Maria-Brigitte, que se encontra de novo no seu ambiente, instintivamente agarra uma espingarda e dispara, acertando o braço de um soldado. E então, de repente – com um baque para o coração do espectador –, tudo pára; e a respiração muda de ritmo. Presas, as duas Marias conhecem Flores, o chefe dos camponeses revoltados; lá vai ele com os braços em cruz, amarrados a um tronco, arrastado para a prisão onde as levam também. O beijo na prisão, onde Maria-Jeanne rasga as roupas de Flores crucificado, depois as suas, (...), certamente que é um momento muito buñueliano (referência ao diretor Luis Buñuel). Que se pode dizer mais? Que ele é, além disso, uma articulação indispensável no filme de Louis Malle, porque a partir desse momento, na revolução plena de fuzilaria que se segue, o riso (...) nunca poderá ser sentido como uma zombaria. Flores morre dos seus ferimentos numa aldeia sombria e inquieta. Na hora da sua morte, Maria-Jeanne jura continuar a sua obra; e ela sabe muito bem arrastar os homens, chamando em seu auxílio a eloqüência  de Shakespeare (...). Mas, quando chega a batalha, não sabe manejar as bombas e as armas. Maria-Brigitte volta para ela ... e eis as duas Marias, ídolos do povo, à frente duma revolução.

Narceu de Almeida Filho: Em Viva Maria, Malle procurou fazer uma ópera cômica sobre a revolução – o que pouca gente entendeu. E, além de divertir, fez o confronto entre o revolucionário instintivo, BB, e o revolucionário romântico, Jeanne Moreau. Trabalhando mais uma vez com seu fotógrafo favorito, Henri Decaë (ele também fotografou Vida Privada), o diretor buscou tirar o máximo de proveito da tela grande (Viva Maria foi filmado em 70 mm) e da cor. Há imagens de grande beleza (...), há humor, há movimentação de massas, há ação e graça.

Jean Delmas: Não posso deixar de pensar que Luis Buñuel reencontrará neste filme – ao qual tantas coisas o ligam, em particular o seu México – um riso que se assemelhará ao seu e uma paixão que se assemelhará à sua.

Avelino Dias: Não sou um admirador das obras ou dos homens da Nouvelle Vague, designação que, no Cinema, nasceu duma confusão e dum desencontro. É certo que algumas películas destes diretores têm valor, assim como um outro é lúcido e coerente. Não nego que a Nouvelle Vague tenha trazido algumas inovações estéticas; mas como dizia (o romancista e musicólogo francês) Romain Rolland ao referir-se aos esteticistas: “Eles etiquetam no seu esteticismo uma revolucão do espírito, que não inquieta de modo algum as estruturas sociais; mas que lhes dá um lugar seguro na primazia duma casta (...).” Dois dos piores defeitos da Nouvelle Vague são: hipertrofiarem certos aspectos da vida humana, isolando-os (...); expressarem-se dum modo hermético, esotérico, nebuloso, confuso, divorciando o público dos filmes. As películas destes cineastas são para o gueto intelectual. Precisamente a glória da França é a clareza, é a racionalidade. As referidas obras vão contra essa tradição francesa. E também dizia Romain Rolland, cujos ensinamentos são desprezados por quase todos aqueles que tanto o incensaram: “O primeiro dever daqueles que pretendem ser companheiros dos humildes é o de falarem numa linguagem que seja acessível a esses mesmos humildes.” As nebulosidades, as confusões, as águas turvas servem para os aproveitadores da glória ou para os hipócritas e prepotentes (ele também poderia ter acrescentado: os farsantes). Por isso, Viva Maria foi para mim uma surpresa muito agradável. Pela sua clareza, pela sua aprazibilidade é, dentro dessa corrente, uma obra à parte. Também é eminentemente cinematográfica (...). Parece-me que este filme é um oásis na sáfara produção da Nouvelle Vague.

Narceu de Almeida Filho: Apesar de tudo, sente-se que Louis Malle não ficou à vontade no gênero da grande produção. (...) Ele não ficou satisfeito com sua obra.

Brigitte Bardot: Conheci com este filme lugares inacessíveis, absolutamente preservados, onde nenhum turista jamais pôs os pés. Descobri, encantada, o coração puro e duro de uma civilização nobre e cruel, tão diferente das imagens americanizadas e estereotipadas de Acapulco dos folhetos publicitários. Paisagens grandiosas, horizontes a perder de vista, desertos imensos, cheios de cactos ameaçadores, de contrastes chocantes de seca, de muita umidade e de neves eternas. Acima daquelas paisagens, reinava a eterna ameaça do (vulcão) Popocatepetl que, como um sábio e severo avô, fumava calmamente. Por trás daquela natureza luxuriante se escondiam a miséria, a fome, a morte. Quantos cachorros esmagados, cadáveres de cavalos e burros, animais famélicos encontrei ao longo das estradas? Quantas aves de rapina, corvos, águias, assumindo sozinhas o serviço de limpeza, vi limparem em alguns dias aquelas carniças fétidas cheias de vermes e de moscas? E todos os camponeses, altivos mas tão pobres; todas as mulheres indígenas com portes de rainhas, carregando os fardos mais pesados nas cabeças, descalças, em farrapos... Aquele monte de crianças cheias de vermes, dividindo um único pedaço de um barraco, com chão de terra batida, com os porquinhos, as galinhas, as cabras, os burros e os cachorros. Habituei-me a levar comigo todos os restos de pão, de arroz, de legumes, de carne e distribuir tudo aquilo, tanto na ida como na volta das filmagens, cada vez que encontrava a desesperança. Que nunca acabava.



QUEM É QUEM

Avelino Dias – crítico cinematográfico português
Brigitte Bardot – atriz francesa
Jean Delmas – crítico cinematográfico francês
Jeanne Moreau – atriz francesa
Narceu de Almeida Filho – crítico cinematográfico  brasileiro

 

Viva Maria (Viva Maria, 1965, 119')
Direção: Louis Malle
Roteiro: Louis Malle & Jean-Claude Carrière
Elenco: Brigitte Bardot, Jeanne Moreau, George Hamilton, Paulette Dubost, Claudio Brook