Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

UM WESTERN QUE É O WESTERN POR EXCELÊNCIA
P. Loubiere & A. Salachas



Se, como o proclamam André Bazin e Jean-Louis Rieupeyrout, os westerns “representam o cinema americano por excelência”, Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) pode ser considerado como o Western por excelência. Todos os elementos que fizeram a grandeza e o sucesso deste gênero encontram-se (...) neste filme de John Ford. Aqui, os temas são ampliados, ou melhor, dilatados. Estendem-se pelo tempo e pelo espaço, adquirindo uma dimensão de eternidade, ou seja, adquirem um caráter de verdadeira epopéia, se considerarmos a Epopéia como um gênero a meio caminho entre a História e a Lenda. (...) Rastros de Ódio é, pois, um grande western. Mas é sobretudo um filme de John Ford, no qual vamos encontrar a maior parte das constantes da sua mitologia pessoal.
John Ford declarou, numa entrevista concedida a Jean Mitry para a revista Cahiers du Cinéma: “Vou realizar um grande western, cujo tema me encanta e responde àquilo que vocês chamam de ‘o meu universo’. (...) Trata-se de Rastros de Ódio, uma estranha aventura que se passa nas Montanhas Rochosas. É a história de alguns pioneiros que partem à procura de uma garotinha que foi raptada pelos índios.”
Não há duvida: Rastros de Ódio é a prova da fidelidade de John Ford aos temas que lhe são caros e a um estilo que lhe é muito peculiar. Podem acusar John Ford de se repetir, de dar às belas imagens dos seus filmes sempre o mesmo tom enternecido e adocicado, de ceder a uma certa atração por um folclore ultrapassado e que ele periodicamente ressuscita. Não importa. O seu grande amor pela humanidade e pela natureza espalha-se por imagens majestosas, elaboradas, enternecedoras e até, por vezes, brutais, que se organizam (...) para formar um grande, um belo poema lírico. E isto é o que conta.

 

Este texto foi transcrito do Programa 325 (de 27 de março de 1960) do Cineclube do Porto