Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

QUANDO É PRECISO SER HOMEM
Paulo Perdigão



Boas causas nem sempre dão bons filmes. Quando É Preciso Ser Homem se apresenta como um depoimento indignado em favor da verdade histórica e veementemente contra a imagem romântica que o Western criou da chamada epopéia da Cavalaria. Inspirando-se em episódio real – o massacre de Sand Creek, no Colorado, em 29 de novembro de 1864, quando os confederados do Coronel Chivingon dizimaram uma aldeia cheyenne, esquartejando crianças e violentando mulheres –, o diretor Ralph Nelson quis estabelecer uma parábola política, a exemplo do que fizeram recentemente Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Sua Herança/The Wild Bunch, 1969) e Abraham Polonsky (Willie Boy/Tell Them Willie Boy Is Here, 1969). Diante das atrocidades cometidas pela US Cavalry contra os indefesos peles-vermelhas, o espectador pode imaginar, diz Nelson, o que foi o genocídio de My Lai, no Vietnã, e compreender o drama atual das minorias raciais.
“Vou lhes contar – com palavras simples – uma história verdadeira”, canta a balada do prólogo. Durante quase toda a narrativa, Nelson mata o tempo com um romance banal e divertido entre uma Candice Bergen com jeito de Jane Fonda e um Peter Strauss com cara de bobo.  No fim, resolve pegar sua platéia de surpresa, com uma seqüência de extrema selvageria que é não só o clímax, mas a própria razão de ser do espetáculo.  O grand-guignol, tão sanguinário que teria de terminar mesmo com o herói vomitando, não se justifica nem no plano estético nem no plano moral. Ao contrário do que ocorria em Meu Ódio Será Sua Herança ou Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967, direção de Arthur Penn), a violência, para uma platéia acostumada à violência, adquire aqui um sentido espetacular sem qualquer poder de revolta; é apenas um efeito sedutor, encenado com precisão coreográfica e irrefreável mau gosto. Na realidade, o filme comete os mesmos erros de tantos westerns que pretenderam exaltar a inocência do bom selvagem em pé de guerra contra ferozes armas que o reduziram ao silêncio e o condenaram à extinção. O perigo de filmes assim é que eles, obedecendo a um esquema rígido de heróis e vilões, terminam irritando o espectador em vez de esclarecê-lo.
A violência cega dos invasores, a violação dos tratados, a matança dos búfalos (agasalho e alimento das tribos), a arrogância e o fanatismo militares, o ódio racista e o jogo de interesses pessoais da cúpula política de Washington já foram mostrados de forma muito mais inteligente em outros westerns a partir de 1950, ano em que Delmer Daves realizou Flechas de Fogo (Broken Arrow). Comparado, por exemplo, com o Último Bravo (Apache, 1954, direção de Robert Aldrich), ou Crepúsculo de uma Raça (Cheyenne Autum, 1964, direção de John Ford), Quando É Preciso Ser Homem é de uma ingenuidade estarrecedora. Basta dizer que atribui o massacre dos cheyennes à irresponsabilidade de um comandante psicopata e não, efetivamente, a um impulso militar coletivo. E termina citando a frase reparadora de um oficial superior, definindo o episódio de Sand Creek como “o mais ignóbil da História dos Estados Unidos”. Dificilmente qualquer espectador americano sairia do cinema com a consciência pesada pelo que viu: a culpa, afinal, ficou cabendo apenas a uns tipos irresponsáveis. Resta a Ralph Nelson lavar as mãos, depois de derramar tanto sangue em vão.

 

Quando É Preciso Ser Homem (Soldier Blue, 1970, 112')
Direção: Ralph Nelson
Roteiro: John Gay, baseando-se no romance Quando É Preciso Ser Homem (Arrow in the Sun), de Theodore V. Olsen
Elenco: Candice Bergen, Peter Strauss, Donald Pleasence, John Anderson, Jorge Rivero, Dana Elcar, James Hampton

 

Este texto foi transcrito do número 32 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, março/abril de 1971, pp. 79-80)