Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

PÔQUER DE SANGUE
José Sanz



Usando como personagens principais de sua história duas figuras salientes da mitologia do Oeste, o jogador, sempre em primeiro plano, e o pregador, Henry Hathaway realizou, com Pôquer de Sangue, um filme de raras virtudes, que não teve maior exaltação crítica e popular por se tratar, exatamente, de obra propositadamente recatada em face do esplendor ribombante que a crítica internacional vem dando aos spaghetti westerns. Nada em Pôquer de Sangue é espetacular.
A história é contada suavemente, como o deslizar tranqüilo de um riacho; seus heróis são homens comuns, cujas pequenas qualidades – as de uma vida medíocre – não chegam a ser suplantadas pelos defeitos (assim, os bons não são inteiramente bons e os maus não são inteiramente maus). Por isso mesmo, Dean Martin e Robert Mitchum, encarnando, respectivamente, o jogador e o pregador, estão de tal maneira admiráveis nos seus papéis que só após o término do filme começam a atuar na imaginação do espectador. E então assistimos a uma nova sessão do filme: ele torna a passar na nossa mente, já com a inevitável e imprescindível informação exigida pela nossa sensibilidade. O filme começa a viver na nossa criação, o que é bem diferente dos spaghetti westerns, em que cada herói dá 382 tiros por minuto, matando 385 bandidos e deixando-nos vazios.

 

Pôquer de Sangue (Five Card Stud, 1968, 103')
Direção: Henry Hathaway
Roteiro: Marguerite Roberts, baseando-se em romance de Ray Gaulden
Música: Maurice Jarre
Elenco: Dean Martin, Robert Mitchum, Inger Stevens, Roddy McDowall, Katherine Justice, John Anderson, Yaphet Kotto

 

Este texto foi transcrito do número 20 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, março/abril de 1969, p. 11)