Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

O WESTERN E O HERÓI SOLITÁRIO
García Escudero



Existe no Western uma dimensão social que é claramente revelada em Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann. Nesse filme, encontramos todos os elementos que temos vindo a assinalar: um problema – estabelecer a ordem –; “um mau” que deve ser vencido; o bom que deve conseguir vencê-lo; a sociedade pela qual o bom luta; e os “outros bons” que, tímidos ou hipócritas, tentam convencer o herói a fugir. Estes não se importam de claudicar desde que, temporariamente, se evite a luta.
Mas estes outros “bons” não serão já nossos velhos conhecidos? É claro que sim. São as senhoras distintas da sociedade de Tonto, a pequena povoação do Texas, que, em No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), de John Ford, exigiam a expulsão da prostituta Dallas. São também as senhoras que, em O Matador (The Gunfighter, 1950) de Henry King, pediam ao xerife que matasse como um cão aquele que só pedia um canto para descansar; gente cruel e puritana, respeitadora da Lei, mas que, em Matar ou Morrer, não mexe um dedo em defesa da Lei, chegando a renegá-la, quando a atuação de um xerife zeloso demais (a quem com certeza já tinha recorrido para a salvar de apuros) põe em perigo aquilo que mais aprecia, a “sua” tranqüilidade (não a tranqüilidade que provém da Justiça, mas a que resulta da paz conseguida a qualquer preço).
É também este o caso de Armado até os Dentes (Man with a Gun, 1955), de Richard Wilson, e de Choque de Ódios (Wichita, 1955), de Jacques Tourneur, dois filmes que, entre muitos outros, seguem as pegadas de Matar ou Morrer. Podemos também mencionar Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock, 1955), de John Sturges; Galante e Sanguinário (3:10 to Yuma, 1957), de Delmer Daves; Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959), de Howard Hawks; e Duelo de Titãs (Last Train from Gun Hill, 1959), de John Sturges. Neste filme é a pessoa menos respeitável da população, uma mulher de vida fácil, que auxilia o herói. Num outro filme, Mancha de Sangue (At Gunpoint, 1956), de Alfred Werker, a comunidade acode em defesa do herói quando este se julga completamente abandonado, embora esta atitude de abandono seja o normal. Mas a recusa a lutar representa o maior dos perigos para uma democracia que confia a execução dos seus princípios ao cidadão, e representa um perigo maior ainda quando se pretende dissuadir o “bom” de lutar. Os argumentos que em Matar ou Morrer propõem ao xerife constituem uma perfeita antologia das razões que podem convencer um homem honrado a abandonar o seu dever. Não vale a pena. Ninguém saberá de nada. Ninguém conhece esta terra. Está tudo tão sossegado... O Estado é que nos deve defender. Não se deve provocar. Estás sozinho. Afinal, quantos somos nós? Vejamos primeiro os fatos. Não nos precipitemos. Não podes com eles... (...). O xerife está só. Só com estes argumentos. Ou contra eles. Pois estes argumentos são aqueles que todos nós já ouvimos ou mesmo já empregamos, e que convertem este filme notável nalguma coisa mais do que um western, (...) fazendo dele o grande filme da solidão do homem que quer cumprir o seu dever e tem de lutar até mesmo com aqueles que pretende defender.

 

Este texto foi transcrito do livro Cinema e Problema Social (Cine Social, tradução de José Carlos González, Lisboa, Aster, s. d., pp. 197-198), de José Maria García Escudero