Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

O WESTERN E A MONTAGEM PARALELA
Henri Agel



A montagem paralela mostra-nos alternadamente duas ações simultâneas que se passam em locais diferentes. Aparece pela primeira na História do Cinema em Attack on a China Mission (1990), do inglês Williamson, e não como se diz em The Great Train Robbery (1903), de Edwin S. Porter.
Com cerca de cinco minutos de duração, Attack on a China Mission mostra o ataque à missão e a aproximação dos soldados enviados para socorrer o missionário. O processo foi depois freqüentemente utilizado em filmes de Aventura e em westerns. Faz os espectadores viverem uma dupla emoção, pois que, por meio do processo de identificação, tão poderoso no Cinema, participamos, quase simultaneamente, do grupo de heróis ameaçados e do grupo daqueles que os vão salvar.
(...)
A montagem paralela foi de alguma maneira transcendida por Fred Zinnemann em Matar ou Morrer (High Noon, 1952). Três quartos do filme são construídos sobre a relação duma intensidade dramática crescente entre a aproximação da hora fatídica (meio-dia) – marcada pelo leitmotiv visual dos três bandidos que esperam o prisioneiro libertado, com a ajuda do qual querem matar o xerife Will Kane – e as tentativas feitas pelo xerife de reunir um grupo de defensores, tentativas que são outros tantos fracassos. O valor dramático destes fracassos torna-se precisamente mais sensível pelo freqüente aparecimento do plano dos três homens à espera e da via férrea. É como se o diretor tivesse desenhado um gráfico de forças antagônicas que se vão confrontando, cada vez mais violentamente, com o desenrolar do tempo, até o desenlace final.
A tensão provocada pela linha dramática e musical deste gráfico atingirá o ponto máximo às 11 horas e 59 minutos, momento que antecede a chegada do trem. O trem deve apitar três vezes, no caso de trazer um passageiro. Zinnemann reuniu neste momento todos os elementos dinâmicos da sua ação, numa espécie de montagem sinfônica, num resumo extraordinário que nos mostra bem que, para ele, o traçado estético da obra representa tanto como o patético da história. Num minuto revemos: a via férrea – a igreja e os fiéis reunidos – o saloon e os fregueses ansiosos – o relógio de pêndulo – o xerife a escrever – o ajudante do xerife – dois habitantes da cidade numa varanda – a mulher que tinha amado Kane – a mulher de Kane – o relógio de pêndulo – os três bandidos – Kane a escrever – o relógio. Então, o trem chega e apita três vezes.

 

Este texto foi transcrito do livro O Cinema (Le Cinéma, tradução de António Couto Soares, Porto, Livraria Civilização, 1972, pp. 79-80), de Henri Agel