Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

OS IMPERDOÁVEIS
Valter Martins de Paula



Um filme simples pode significar muito para muitas pessoas. Uma história de vingança, igual a muitas outras, pode trazer novidades para quem a assiste e também para aqueles que a interpretam. No início dos anos 1990, o ator e diretor Clint Eastwood filmou um roteiro que havia mais de duas décadas estava engavetado em Hollywood. Escrito por David Webb Peoples, esse roteiro homenageava, de certa forma, o gênero cinematográfico norte-americano por excelência, o Western. Porém, sob uma perspectiva mais humana e intimista, diferente de tantos outros realizados e interpretados pelo mesmo Clint Eastwood, que se tornou um astro a partir de três spaghetti westerns dirigidos por Sergio Leone na década de 1960.
Os Imperdoáveis é um filme louvável justamente por quebrar paradigmas já estabelecidos. Como se não bastasse, é um longa-metragem que conseguiu repercutir graças às suas mensagens, transmitidas sempre de maneira direta e sem rodeios. A história poderia ser resumida em pouquíssimas linhas: grupo de prostitutas de uma pequena cidade rancheira contrata uma dupla de matadores aposentados para assassinar dois jovens que retalharam o rosto de uma delas. No entanto, a ação que transcorre desse fiapo de argumento vai ganhando contornos inusitados no desenrolar da história.
O grande diferencial desse filme são as facetas várias que cada um dos personagens guarda em si. No início da narrativa, somos testemunhas de dois vaqueiros, comparsas aposentados, que ganham a vida ordinariamente, criando porcos. Tais vaqueiros “comuns” na verdade são assassinos frios e calculistas, que, por uma jogada do destino e pela inevitável passagem do tempo, se tornaram apenas cidadãos que tentam sobreviver de maneira honesta. Mas o passado de matanças retorna quando, contratados por uma quantia considerável de dinheiro, buscam vingança.
Dessa forma, o filme consegue, sem esforços indevidos, transitar por diversos gêneros, em especial o Drama e o Western. Tampouco é fácil para o espectador detectar mocinhos e vilões, pois o roteiro, rico em detalhes, não os delineia de forma clara. O que o texto, transformado em imagens, coloca em evidência é a natureza da violência e o porquê de toda alma humana ser corrompida por ela, quer seja a pessoa boa ou má. Mais ainda: o que os personagens do filme transmitem é uma questão de crença, que, como é de praxe, não necessita ser explicada. Apenas há a defesa daquilo que se acredita ser o “certo”, seja para qual lado o cordão pender.
A defesa de pontos de vista polêmicos é uma constante no cinema de Clint Eastwood. E, não coincidentemente, seu outro filme premiado com o Oscar de Melhor Filme – Os Imperdoáveis ganhou o Oscar de Melhor Filme de 1992, sendo o terceiro western, depois de Cimarron (Cimarron, 1930) e Dança com Lobos (Dances with Wolves, 1990), a conquistar esse prêmio –, Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), que enfoca a eutanásia e suas conseqüências psicológicas e sociais para aqueles que a praticam, é outro exemplo de bom cinema econômico.
Os Imperdoáveis é um filme que conseguiu respeito junto à indústria cinematográfica hollywoodiana, galgando degraus nunca antes galgados por um western.
Para mim, é um filme que transcende qualquer juízo de valor; minha recordação dele é, acima de tudo, afetiva, pois foi com ele que “aprendi” a ver o cinema de Clint Eastwood e a tornar Clint Eastwood um de meus artistas favoritos.
Termino este texto dizendo que Clint Eastwood é o tipo de ator/diretor que sempre terá algo interessante a contar para o público, que sempre o agradecerá, transformando seus filmes em sucessos comerciais e, às vezes, artísticos.

 

Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992, 131')
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Warner

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador