Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

OS ABUTRES TÊM FOME
Marcos Ribas de Faria



Apesar de trazer a assinatura de Don Siegel e de todo o seu invólucro formal (o sentido e o ritmo da montagem, a elegância, a fluidez e funcionalidade dos grandes movimentos de câmara tão queridos do diretor de Os Impiedosos/Madigan), Os Abutres Têm Fome é um western muito próximo do espírito boetticheriano por tudo aquilo que envolve o estar dos personagens, a maneira simples de eles verem e viverem o mundo e de eles reagirem a tudo aquilo que ocorre à sua volta (milagre ou casualidade). Tanto Irmã Sara como Hogan, muito mais que personagens de uma dramaturgia siegeliana, são ambos o prolongamento natural de outras personagens que viveram o espírito da aventura e enfrentaram o perigo (...), sob o olhar profundamente humano e direto da câmara de Budd Boetticher, que dirigiu um grande número de westerns. Isso não quer dizer que Os Abutres Têm Fome seja uma obra incaracterística, assinada por um diretor tão pessoal e característico como é Siegel. Não é, portanto, um mero produto influenciado pelo cinema de Boetticher; nem pode ser considerado como um hiato na carreira do diretor de Meu Nome é Coogan (Coogan’s Bluff, 1968). Muito pelo contrário: esse espírito boetticheriano que está presente na fita é o resultado de uma política consciente de Siegel e uma homenagem mais do que evidente e merecida a esse homem que, sem apoio ou os aplausos do sistema de Hollywood, soube construir, dentro de uma grande modéstia e como poucos, uma obra que ajudou todos nós a amarmos o Western e, conseqüentemente, o cinema americano.
O charme de Os Abutres Têm Fome reside, então, na aplicação exemplar da exuberante mise-en-scène de Siegel à simplicidade (embora riquíssima em matéria de observação humana) da história de Boetticher. Os dois personagens (...) a partir dos quais o fio narrativo é conduzido, Irmã Sara e Hogan, são duas pessoas que lutam pela própria liberdade e pela liberdade de um país, o México, sob o regime-fantoche do Arquiduque Maximiliano da Áustria. Não importa que cada um veja essa luta e essa liberdade de ângulos diferentes. O que importa é que são duas pessoas livres e que fazem essa (ou participam dessa) luta exatamente para poderem assumir o papel que livremente escolheram. O filme, por essa mesma razão, procura, o mais objetiva e claramente possível, estabelecer (e não explicar), por meio da ação, as relações entre os dois personagens e as relações entre eles e a paisagem (e nesse aspecto é impecável o papel da câmara de Siegel), numa constante luta pelo que acham que seja correto e justo (...). O filme jamais se afasta do essencial; e mesmo que a câmara se detenha em episódios acessórios (...), esses mesmos episódios, em termos estruturais, deixam de ser acessórios e tornam-se partes importantes dessa trajetória aventurosa que é a viagem empreendida por Irmã Sara (ela luta pela liberdade do México porque ama a liberdade) e Hogan (ele luta pelo dinheiro que vai ganhar e que vai lhe possibilitar construir uma vida livre). E o admirável é que, apesar de tudo, o filme, narrativamente, se baseia, sobretudo, não na causa que eles defendem e sim naquilo que fazem para defendê-la. O espírito de aventura do Western se faz assim revigorado.

 

Os Abutres Têm Fome (Two Mules for Sister Sara, 1970, 105')
Direção: Don Siegel
Roteiro: Albert Maltz, baseando-se numa história de Budd Boetticher
Fotografia: Gabriel Figueroa
Música: Ennio Morricone
Elenco: Clint Eastwood, Shirley MacLaine, Manolo Fabregas, Alberto Morin, Armando Silvestre, Jose Chavez, Ada Carrasco
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Universal

 

Este texto foi transcrito do número 29 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, setembro/outubro de 1970, p. 167)

 

NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):
Ex-toureiro, Budd Boetticher (1916-2001), iniciou sua carreira no Cinema como conselheiro técnico de Sangue e Areia (Blood and Sand, 1941), um filme sobre touradas, baseado no romance do escritor espanhol Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928).
Especialista em fitas com muita ação, Budd Boetticher dirigiu vários westerns, sendo os mais famosos os sete filmes que dirigiu com o ator Randolph Scott: Sete Homens Sem Destino (Seven Men from Now, 1956), que muitos consideram o seu melhor trabalho; O Resgate do Bandoleiro (The Tall T, 1957); Entardecer Sangrento (Decision at Sundown, 1957); Fibra de Herói (Buchanan Rides Alone, 1958); O Homem Que Luta Só (Ride Lonesome, 1959); Um Homem de Coragem (Westbound, 1959); e Cavalgada Trágica (Comanche Station, 1960).