Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

ONDE COMEÇA O INFERNO
Emídio Fernandes



O tema “um homem contra um grupo” é velho no Western. É o tema que achamos em Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann, marco do aparecimento do “Super-Western” de André Bazin. É o tema de muitos outros westerns, dentre os quais se destacam: Galante e Sanguinário (3:10 to Yuma, 1957), de Delmer Daves, Duelo de Titãs (Last Train from Gun Hill, 1959), de John Sturges, e Minha Vontade É Lei (Warlock, 1959), de Edward Dmytryk. Neste Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), de Howard Hawks, o centro da questão desloca-se um bocado: já não é “o homem contra o grupo”, mas um grupo pequeno contra outro grupo – grande. O xerife já não está só, tem consigo os amigos. Descobre-se finalmente a amizade. Mas a cidade... essa permanece sempre passiva e acovardada. É interessante notar, a esse respeito, que em apenas um filme (Minha Vontade É Lei) a cidade acorda e reage (...)
Ao espectador menos atento, Onde Começa o Inferno parecia ir tornar-se mais um faroeste medíocre, devido à violência do início. Mas esse início chocantemente violento serve apenas para nos marcar o clima, para nos atirar de repente para o meio do problema, para nos marcar o temperamento duro dos personagens (...). Segue-se depois um western de conceitos, um western sem cavalos ou grandes espaços, um western interior, um western sem personagens imaculados, um western com personagens humanos. Homens com todos os defeitos e qualidades, homens capazes de sentir medo e de se embebedarem, mas homens leais à amizade e tenazes como só os homens são capazes de ser.
O assunto é simples – propositadamente simples. Numa cidade, o irmão do indivíduo mais poderoso do local comete um assassinato. É preso pelo xerife, que sofre depois uma pressão intensa para o soltar. E à sua volta juntam-se amigos com os quais ele resiste: um velhote coxo e resmungão; um antigo auxiliar, que tinha se tornado alcoólatra devido a desenganos amorosos; um pistoleiro sem barba no rosto (no Velho Oeste, a vida selvagem obrigava os homens a aprender a matar antes mesmo de se aprender a fazer a barba); e uma aventureira, mulher de cabaret, que ama o xerife. É este grupo que se opõe ao poderio do poderoso Burdette. Mais do que contra Burdette, eles lutam para se encontrar, e só vencem quando o conseguem. O velho prova que ainda vale muito; o bêbado deixa de beber; e o próprio xerife perde a sua capa superficial de dureza, apaixonando-se pela aventureira. E o assassino continuará preso, esperando o julgamento.
É, repito, um western sem planícies e grandes cavalgadas, um western de interiores, um western em que (...) o xerife usa uma espingarda e não um revólver. Aquela espingarda é o símbolo do abandono quase total do formalismo do western habitual: o Oeste já não é em si fator importante, mas palco apenas onde se debatem problemas humanos. E mesmo a única cena do filme em que nos deparamos com a imensidade dos espaços abertos do Oeste é simbólica: trata-se da cena em que se chocam os pistoleiros e os amigos do xerife (nesta cena, os pistoleiros, personagens típicas dos antigos westerns, são vencidos pelos personagens torturados e humanos dos super-westerns).
(...)
Hawks sabe como fazer cinema e mostra-o bem. (...) Sem recorrer muito ao grande plano, (...) consegue com os seus planos médios freqüentes dissecar os rostos das personagens, trazendo constantemente para o écran as suas dúvidas e os seus receios, os seus problemas e as suas resoluções. Há uma busca sistemática do interior, desse interior que acaba por vencer e triunfar, desse interior que sabe que a coragem não é não ter medo mas sim ter medo e continuar para frente, mesmo perante uma cidade apática e parada. São assim os verdadeiros Homens.

 

Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959, 141')
Direção e Produção: Howard Hawks
Roteiro: Jules Furthman & Leigh Brackett, baseando-se numa história de B. H. McCampbell
Música: Dimitri Tiomkin
Elenco: John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson, Walter Brennan, Ward Bond, John Russell, Pedro Gonzalez-Gonzalez, Estelita Rodriguez, Claude Akins, Malcolm Atterbury, Harry Carey Jr., Bob Steele
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Warner

 

Este texto foi transcrito do número 36 da revista Celulóide (Rio Maior, Fernando Duarte Editor, dezembro de 1960, pp. 15-16)