Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

O MAIOR CANTOR ÉPICO DE NOSSO TEMPO
Maurício Gomes Leite



Se o Cinema, como quer André Bazin, é a arte específica da epopéia, John Ford é indiscutivelmente o maior cantor épico de nosso tempo. A afirmativa, que poderá surpreender apenas aquele reduzido grupo de intelectuais vestidos de sábios das letras, não será estranha a todos os que tiveram um contato mais demorado com a arte cinematográfica – ou mais especialmente com filmes como The Iron Horse (1924), No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), Paixão de Fortes (My Darling Clementine, 1946), Caravana de Bravos (Wagon Master, 1950) e Rastros de Ódio (The Searchers, 1956). Todos dirigidos por John Ford, esses filmes são mais do que westerns e contam mais do que simples histórias de época. Na verdade, representam o máximo a que poderia chegar o Cinema como ilustração da epopéia ou como um documento historiográfico daquele que foi o fenômeno típico de todo o desenvolver de uma civilização. O que se destaca em Ford, porém, é que suas obras, mesmo sendo historiográficas, não representam apenas registros de fatos reais, datas, ou recuperação de acontecimentos ou personagens. Fugindo à influência do documento, ele inscreve suas histórias na área da imaginação, colocando assim a narração naquele setor das relações precisas entre o Western e a História, que devem ser dialéticas antes de ser imediatas e diretas. Desse modo, Wyatt Earp e Doc Holliday, embora tenham existido, não se comportam exatamente como os modelos descritos pelos historiadores ou cronistas: o destino de ambos se liberta da reconstituição, passando Wyatt e Doc a agir como personagens em movimento (Paixão de Fortes). Ou em palavras mais simples, Ford não conta o que aconteceu, mas sim o que está acontecendo ou o que poderia ter acontecido. Alargando os limites da História, Ford atinge todas as impossibilidades da epopéia; e sua obra, por isso, é a chanson de geste do Oeste norte-americano.
Um grupo que se desloca, no território americano, do Leste para o Oeste, do Norte para o Sul, da rua de Tombstone para o O.K. Corral, a pé, em carroções, a cavalo, na diligência de Lordsburg – aí está o western de John Ford, seu mundo particular, de que são exemplos específicos: Caravana de Bravos, Paixão de Fortes, Legião Invencível (She Wore a Yellow Ribbon, 1949), Rastros de Ódio, No Tempo das Diligências e Marcha de Heróis (The Horse Soldiers, 1959) (...).

 

Este texto foi transcrito do número 2 (nova série) da Revista de Cinema (Belo Horizonte, s. e., maio/junho de 1961, pp. 62-63)