Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA
F. Morgado



Mais um western. Mais um filme de John Ford. E os apreciadores do gênero, que acorreram em sua busca, não ficaram desiludidos com esta 122ª obra de Ford, embora nela não tivessem encontrado as clássicas e tão apreciadas cenas de tiroteio e de cavalgadas em largos horizontes. A ação decorre, de fato, quase sempre em locais fechados e traduz os conflitos resultantes das relações entre pessoas cujos interesses ou sentimentos se chocam. O certo é que as situações chegam a alcançar elevada tensão emotiva e espetacular. Quando Liberty Valance entra em cena, por exemplo, parece que um vendaval se aproxima do espectador.
O tema do filme é cheio de interesse, de sentido crítico, de ironia. Com efeito, John Ford procura mostrar que o êxito de causas justas e de idéias generosas não pode ser alcançado na prática apenas com palavras e boa vontade. Certos conflitos chegam a atingir um grau tão elevado de inconciliação que a razão e o direito, se chegam a ser pisados pela força, apenas outra força que se oponha a essa força poderá fazê-los valer e vingar.
Claro que não vale a pena contar a história deste filme. É uma boa história; mas, como em todas as histórias do Oeste, nela a lenda confunde-se com a realidade dos fatos ocorridos ou, melhor, como dirá o jornalista a quem a mesma é contada: “No Oeste, quando a lenda se torna fato, publica-se a lenda.”
(...)
Ranse Stoddard é um jovem advogado que se fixa em Shinbone, uma pequena cidade do Oeste, decidido a pôr em prática tudo o que aprendeu, a lutar contra o crime por meio da Lei. Porém, a lei que impera em Shinbone é a imposta pelas armas. E Ranse terá cedo de enfrentar o terrível bandido Liberty Valance, que, sem quaisquer escrúpulos para atingir os seus fins (ele é agente dos grandes fazendeiros e criadores de gado da região, os quais começam a sentir os seus interesses lesados pelos desejos do povo de Shinbone), atuará violentamente, implantando o terror na cidade. A esta barreira do terror, de reação violenta, terá que se impor outra barreira – igualmente de força, mas também de firmeza, de abnegação, de interesse ativo e persistente pela transformação do estado de coisas. Assim, Tom Doniphon, ainda mais duro e decidido que Valance, colocará sempre, sem hesitação, a sua arma do lado dos justos. Dutton Peabody porá o seu jornal ao serviço dos grandes ideais e da justiça; e defenderá, contra todos os riscos e com o próprio sacrifício, a informação séria e esclarecedora, dando a Valance uma “terrível” lição, que ele, Dutton, chamará de “liberdade de Imprensa”. Ranse, com a ajuda da esposa, Hallie, uma mulher decidida e abnegada, não descuidará de outro aspecto importante da luta: ensinar as pessoas a ler e a compreender, base indispensável para a sua formação e educação cívica. Muito significativamente e não sem grande ironia, Link Appleyard será um xerife que tem medo dos bandidos e se abaixa quando ouve um tiro, apenas encontrando a razão de viver nos braços de sua mexicana ou diante de um bom bife.
Interessa, finalmente, realçar que em O Homem Que Matou o Facínora todos os fatores – o argumento, direção de atores, qualidade de interpretação, estudo cuidado dos caracteres, domínio técnico e expressão artística – se conjugam harmoniosamente num espetáculo de elevado nível, perfeito no gênero, revelador, sem dúvida, da grande mestria de John Ford.

 

O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962, 123')
Direção: John Ford
Roteiro: James Warner Bellah & Willis Goldbeck, baseando-se num conto de Dorothy M. Johnson
Elenco: James Stewart (Ranse Stoddard), John Wayne (Tom Doniphon), Vera Miles (Hallie Stoddard), Lee Marvin (Liberty Valance), Edmond O’Brien (Dutton Peabody), Andy Devine (Link Appleyard), Ken Murray, Jeanette Nolan, John Qualen, Willis Bouchey, Carleton Young, Woody Strode, Strother Martin, Lee Van Cleef
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Paramount

 

Esta crítica foi publicada originalmente no Programa de fevereiro de 1970 do Cineclube Imagem, de Lisboa