Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

NOSFERATU
UMA SINFONIA DE HORROR

(uma adaptação para teatro do romance Drácula, de Bram Stoker)
Marco Aurélio Lucchetti



CENA 8 – A BORDO DO “DEMETER”

VOZ DO CAPITÃO (em off):
DIÁRIO DE BORDO DO “DEMETER”


6 de julho
Partimos do porto de Varna, na Bulgária, com destino a Whitby, na Inglaterra.
A tripulação é composta por mim; dois imediatos, cinco marinheiros e um cozinheiro.
Nossa única carga são quarenta caixões de madeira contendo terra para experiências botânicas.
Abrimos um dos caixões, para verificar; e encontramos, além de terra, muitos ratos.

14 de julho
Estou um tanto inquieto por causa da tripulação. Vi os marinheiros fazendo o Sinal da Cruz diversas vezes.

16 de julho
Um dos marinheiros desapareceu. Outro marinheiro disse que há algo a bordo.

17 de julho
Um dos homens veio à minha cabina e, atemorizado, falou-me confidencialmente que julgava haver um estranho a bordo. Disse que, na noite anterior, avistara no convés um homem alto e magro, que não se parecia com ninguém da tripulação.
Para acalmar o marinheiro, falei que revistaríamos o navio inteiro, da proa à popa. E assim fizemos: munidos de lanternas, vasculhamos todos os cantos da embarcação. Não encontramos nada, a não ser os caixões com terra.

22 de julho
Mau tempo nos últimos três dias.
Passamos o Estreito de Gibraltar.

24 de julho
Este navio parece amaldiçoado. Outro homem da tripulação desapareceu. Os marinheiros estão em pânico. O primeiro imediato mostrou-se inquieto e disse que teme um motim.
Entramos no Mar Cantábrico.

28 de julho
Outra tragédia. Mais um marinheiro desapareceu. O primeiro imediato e eu decidimos andar armados de agora em diante, à espera de algum sinal que nos indique a causa desses desaparecimentos.

30 de julho
Alegramo-nos por estar perto da Inglaterra.
O segundo imediato e o cozinheiro também desapareceram.
Agora, no navio só restam o primeiro imediato, dois marinheiros e eu.

1º de agosto
Dois dias de intenso nevoeiro, que parece nos acompanhar; e nenhum outro navio à vista.

2 de agosto, meia-noite
Após ter dormido alguns minutos, fui despertado por um grito desesperado. Saí correndo da minha cabina. Nada pude ver, devido ao nevoeiro. Corri para o tombadilho e esbarrei no imediato. Ele me disse que ouvira um grito e correra para ver o que era.
Para nossa infelicidade, mais um marinheiro desapareceu. Penso que foi ele quem gritou. Mas não sei dizer o que o motivou a gritar.

3 de agosto
À meia noite, fui substituir o homem no leme e, quando cheguei lá, não encontrei ninguém. Poucos minutos depois, o imediato se juntou a mim. Tinha os olhos esbugalhados e parecia desfigurado, o que me fez temer que tivesse perdido a razão. Ele, então, sussurrou ao meu ouvido, como se o próprio ar pudesse ouvi-lo:
VOZ DO IMEDIATO (em off): Eu vi a coisa esta noite. Agora sei que ela está aqui. Era semelhante a um homem alto, magro e fantasmagoricamente pálido. Estava na proa e olhava para fora. Aproximei-me sorrateiramente dele e enfiei-lhe a faca; porém, ela atravessou o ar como se nada houvesse ali. Depois, a coisa sumiu; mas eu a encontrarei. Deve estar no porão, num daqueles caixões. Vou examinar um por um. Manobre o senhor mesmo o leme, capitão.

VOZ DO CAPITÃO (em off):
DIÁRIO DE BORDO DO “DEMETER”


4 de agosto, primeiras horas da madrugada
Ouvi o imediato martelar no porão. De repente, ouvi-o gritar.
Meu sangue gelou; e o imediato apareceu no tombadilho, com os olhos arregalados. Não disse nada e tresloucadamente atirou-se ao mar.
Como prestarei contas de todos esses horrores, quando chegar ao porto?
Mas será que chegarei?

4 de agosto
O nevoeiro persiste. Nem a luz do sol consegue vará-lo.
Eu vi a coisa!
Que Deus me perdoe, mas o imediato teve razão em atirar-se ao mar.
Sei que irei morrer... Que Deus, a Virgem Maria e todos os santos me ajudem!

Durante as falas do capitão e do imediato são exibidos trechos (as cenas passadas no navio) do filme Nosferatu, de F. W. Murnau.



CENA 9 – CELA DO HOSPÍCIO E CHEGADA DO CONDE ORLOK A WHITBY

Foco de luz em cima de Renfield.
Outro foco de luz em cima do Conde Orlok, que caminha vagarosamente pelo palco (ele caminha da direita para a esquerda), carregando seu caixão.

RENFIELD (com os olhos arregalados): O dr. Seward não atendeu meu pedido. Não trouxe os gatos que lhe pedi. Maldito! Mil vezes maldito! Ah, os gatos já não me interessam mais... Para que se contentar com seres pequenos? O enfermeiro é muito mais nutritivo! (com expressão alucinada) Tem muito mais sangue! (arreganhando os dentes) Na próxima vez que ele entrar nesta cela, vou... (abaixando o olhar) Que nojo que é este lugar! Cheio de ratos! Não sei como pude pensar em comer esses animais peludos e nojentos...
Pausa.
RENFIELD (com o olhar vidrado): Bah! Nem o enfermeiro me interessa mais!
Pausa.
RENFIELD (ainda com o olhar vidrado): As damas de honra regozijam os olhos de quem espera a noiva; mas, quando esta aparece, todas as demais mulheres perdem o brilho.
Pausa.
RENFIELD (dando um passo para frente): O Mestre está chegando! O Mestre está perto! O Mestre irá me recompensar... por eu ter sido bonzinho. Aguardo ansioso a chegada do Mestre, o Senhor dos Ratos!
Foco de luz em cima de Renfield se apaga. O mesmo acontece com o foco de luz que ilumina o Conde Orlok.



CENA 10 – QUARTO DO CASAL HARKER

É noite.
Mina, sentada na banqueta, penteia os cabelos com a escova de cabelo. Em seguida, coloca a escova em cima da penteadeira. Ela está angustiada.

MINA (cheia de angústia): Oh, meu doce Jonathan... Minha alma está dilacerada, por não ter notícias suas. Está morto? Ferido? Se já não se encontra no reino dos vivos, nada mais importa...
Surge o Conde Orlok. Ele aproxima-se de Mina e toca-lhe o ombro com uma das mãos.
MINA (assustada, virando-se, para olhar Orlok): Quem é você? Como entrou aqui?
ORLOK (colocando a mão em cima do ombro de Mina): Vejo medo em teus olhos... Por que isso? Não quero te fazer nenhum mal...
MINA (levantando-se): Você é o Conde Orlok, não é?
Orlok nada fala.
MINA (mais calma): Onde está meu marido? Onde está Jonathan?
ORLOK: Na Transilvânia, em meu castelo...
MINA: Que fez com ele? Matou-o?
ORLOK (com o olhar fixo no pescoço de Mina): Ele está bem... Realmente, tens um belo pescoço!
MINA (parecendo não ter ouvido a última frase de Orlok): Que você quer de nós?
ORLOK (batendo os dentes, com ansiedade): O teu amor. O amor que dás a Jonathan.
MINA (dando-lhe as costas): Jamais o terá. Não darei esse amor nem a Deus.
ORLOK (com raiva): Não fala esse nome! (mais manso) Eu preciso do teu amor...
MINA (taxativa): Não! Se Jonathan não puder ter o meu amor, ninguém mais o terá!
ORLOK (dando voltas em torno de Mina): Posso trazê-lo de volta, se quiseres...
MINA (com indiferença): Mas nada peça em troca!
Orlok continua dando voltas em torno de Mina.
MINA (acompanhando-o com o olhar): Eu sei... Eu sinto que você é o responsável por todas as mortes que estão acontecendo na cidade.
Orlok pára e encara Mina.
MINA (sustentando o olhar de Orlok): As pessoas estão morrendo, vítimas da peste que você trouxe.
Orlok continua encarando Mina.
MINA (ainda sustentando o olhar de Orlok): Você é um monstro!
ORLOK (desviando o olhar): Não! Não sou um monstro! Sou apenas um ser que deseja amar e ser amado!
MINA (procurando olhar nos olhos de Orlok): Será que já amou algum dia?
ORLOK (olhando com ternura para Mina): Não percebes que te amo? Desejo teu amor...
MINA (balançando negativamente a cabeça): Você não pode amar! O amor é luz, é uma luz crescente e constante; e você é um ser das sombras!
ORLOK (balbuciando): Não percebes meu sofrimento? Não percebes meu tormento? Não vês minha alma dorida?
MINA (com rancor): Vejo apenas o sofrimento que você causa... Vejo apenas o horror... o mais horrível horror, que você espalha...
ORLOK (dando um passo na direção de Mina): Não fala essas coisas!
MINA (recuando um passo): Falo, sim! Por onde você passa só fica o vazio, o deserto, a ausência, a solidão...
ORLOK (em tom desafiador): Que tu, simples mortal, sabes sobre a solidão?
Mina nada responde. Apenas olha, meio assustada, para Orlok.
ORLOK (em tom patético): É por demais doloroso passar anos, décadas, séculos... sozinho, sem ter uma pessoa a quem amar. Essa é a verdadeira solidão!
MINA (desviando o olhar): Nada sei sobre isso! O que sei é que estamos todos em suas mãos. A morte nos cerca!
Orlok fica olhando para Mina, em silêncio.
MINA (com expressão triste): A morte é cruel.
ORLOK (ainda em tom patético): A morte não é cruel!
MINA (encarando Orlok): Nem mesmo quando é inesperada?
ORLOK (balançando negativamente a cabeça): Cruel é não poder morrer, mesmo quando se deseja.
MINA (ainda encarando Orlok): Por que não pára essas mortes? Para que espalhar mais sofrimento neste mundo já cheio de tanta dor?
ORLOK (com sofrimento): A ausência do teu amor é a mais vil das dores!
MINA (taxativa): Eu já disse que nunca terá o meu amor! Nunca! Agora, retire-se!
ORLOK (retrocedendo um passo): Boa-noite!
Orlok retira-se.
Mina, durante algum tempo, permanece parada no mesmo lugar. Depois, senta na banqueta, cobre o rosto com as mãos e começa a chorar.




CENA 11 – QUARTO DO CASAL HARKER

É madrugada.
Mina está deitada na cama, dormindo. Seu sono é agitado, pois ela se debate nervosamente no leito, enquanto dorme.
Aparece o Conde Orlok, que caminha em direção ao leito, com o olhar fixo em Mina. Ele pára a um metro de distância da cabeceira da cama, ainda com o olhar fixo em Mina, que deixa de se agitar.

ORLOK (com voz terna): Quem da beleza tiver de se apartar que fuja, desviando o olhar. Caso contrário, para ela será atraído sem parar.
MINA (acordando e levantando a cabeça): Conde Orlok...!
Orlok fixa o olhar nos olhos de Mina.
ORLOK (aproximando-se mais da cama): Fica calma... Tudo terminará em poucos instantes!
Mina entra em transe, afunda novamente a cabeça no travesseiro e fecha os olhos.
Orlok ajoelha-se junto à cama e vai aproximando sua cabeça do pescoço de Mina. Em seguida, morde o pescoço e começa a sugar o sangue.
Ouve-se um galo cantar, ao longe.
Orlok levanta a cabeça por um instante e olha para os lados. Depois, recomeça a sugar, com deleite, o sangue.
Mina deixa seu sangue ser sugado, sem esboçar nenhuma reação. Não dá nem mesmo um gemido.
O galo canta novamente.

ORLOK (afastando a boca do pescoço de Mina): O tempo é um abismo profundo como mil noites. Séculos vêm e vão. Não poder envelhecer ou morrer é um terror!
Orlok volta a sugar o sangue de Mina. A seguir, levanta-se e olha para sua vítima, que está totalmente imóvel.
A luz do sol entra através da janela. Orlok caminha para ela.
A luz do sol incide diretamente sobre Orlok, que não dá mais nenhum passo, leva a mão ao peito e solta um grito de agonia.
Orlok cai ao chão e ali fica, sem se mexer mais. Pouco a pouco, seu corpo começa a se desmanchar, até se transformar em um monte de pó.



EPÍLOGO – CELA DO HOSPÍCIO

É madrugada.
Renfield está de pé, imóvel, com os olhos fechados.

RENFIELD (abrindo os olhos): Já não ouço os sons da noite!
Pausa.
RENFIELD (dando voltas em torno de si mesmo): Minha vista se turva! As sombras me rodeiam...
Pausa.
RENFIELD (parando de rodar): E está tudo tão quieto!
Pausa.
RENFIELD (avançando alguns passos): O silêncio! O silêncio! Tudo está tão silencioso que consigo ouvir o sangue correndo em minhas veias!
Pausa.
RENFIELD (gritando): Seward! Seward! (em tom mais baixo) O maldito nunca aparece, quando preciso dele!
Pausa.
RENFIELD (olhando para cima): O silêncio está querendo me dizer algo!
Pausa.
Ouve-se o cantar de um galo, ao longe.

RENFIELD (ainda olhando para o alto): Logo irá amanhecer... (abaixando o olhar) Os ratos... os ratos nojentos desapareceram... Mas eu não os comi!
Pausa.
O galo canta novamente.

RENFIELD (quase sussurrando): Sinto como se a morte corresse em meu corpo...
Pausa mais longa.
RENFIELD (olhando novamente para cima): O Mestre... O Mestre está morto!
Pausa.
RENFIELD (avançando alguns passos, com ar de alucinado): Mataram o Mestre! Mataram o Mestre! Amaldiçoados sejam!
Pausa.
RENFIELD (parado): E agora, que será de mim? Que será de mim...?
Tudo fica às escuras.