Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA
Fernando Fausto de Almeida



Os protagonistas de Meu Ódio Será Sua Herança são seres que persistem em viver quando a sua época e o seu universo já se encontram mortos. Homens nascidos e criados na violência, servindo-se dela depois para se conservarem vivos, eles próprios se condenam à destruição, uma vez que se mostram incapazes de se adaptarem a um mundo em grande parte transformado. Esse mundo – onde a agressão não foi banida, mas apenas tomou novas formas – tem aliás pressa em os eliminar da face da Terra. Não é só por força da caçada de que se vêem alvo que os bandoleiros de Pike Bishop mudam de teatro de ação, deslocando-se para o sul. Rumando para territórios onde a turbulência e a insegurança campeiam, procuram tão-somente subsistir, tentando enquadrar-se a um meio o mais semelhante possível à América selvagem que conheceram.
O México em plena convulsão das suas guerras civis da segunda metade do século XIX parece local propício para o pequeno bando de desperados exercer suas atividades de rapina e violência. Porém, esses homens trazem a morte consigo. Últimos representantes duma raça em vias de desaparecimento, autênticos dinossauros humanos, eles vão ao México para morrer.
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O olhar que Sam Peckinpah passeia sobre os protagonistas de Meu Ódio Será Sua Herança é lúcido e desmitificador. Contemplando os pistoleiros de Pike com certa simpatia, estando profundamente interessado na sua tragédia pessoal, o cineasta nem por isso deixa de apresentá-los como mercenários sem escrúpulos, homens unidos pela necessidade, homens prontos a matarem ao mínimo pretexto e tendo o dinheiro como único ideal (excetue-se neste último aspecto o mexicano, que sacrifica a sua parte nos lucros derivados do assalto a um trem em troca dum caixote de armas e munições para os guerrilheiros).
Nem criaturas hediondas ou satânicas, nem heróis puros e sem mácula, os bandoleiros de Meu Ódio Será Sua Herança são homens simples, vivendo de maneira intensa cada dia que passa. São párias malditos que, apesar de tudo, amam a vida (de forma talvez instintiva, primitiva; mas não interessa!), o que afinal os iguala aos outros homens.
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Durante todo o filme, Peckinpah evita tombar no melodrama, na retórica dos bons sentimentos, do psicologismo fácil e convencionalista. Não aparecem aqui bandidos cavalheirescos e de coração de ouro, que a sede de vingança ou os desfavores da fortuna puseram à margem duma sociedade perante a qual se resgatam por meio de ação heróica em favor da Lei e da Justiça... Os protagonistas da história são vistos sem romantismos exacerbados e álibis hipócritas, o que dá a idéia duma honestidade, duma coragem e dum equilíbrio notáveis da parte dum diretor que também consegue fugir nesta fita à armadilha das longas discussões mais ou menos filosóficas ou filosofantes. Os personagens são, repito, gente simples e pouco cerebral, que não se interroga muito e prefere agir a falar longamente. Meia dúzia de palavras, incisivas e inexoráveis, valem mais, aliás, que longos discursos. Isso se verifica com aquela pergunta que, num diálogo entre Pike Bishop (William Holden) e Dutch Engstrom (Ernest Borgnine), é lançada depois que um dos dois aventa a hipótese de poderem abandonar a sua perigosa profissão: “Para fazer o quê?”
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Quando se discute Meu Ódio Será Sua Herança, tem forçosamente de se falar da violência. O filme abre e fecha com seqüências de incrível brutalidade, como raras vezes o espectador de filmes teve oportunidade de ver numa fita: o assalto ao banco e subseqüente tiroteio e o massacre no quartel-general de Mapache. Entre esses dois pontos limites, a ação decorre normalmente à beira do abismo, na iminência da luta, do ajuste de contas, do assassínio. De vez em quando, dá-se a explosão, as armas entram em atividade. Existe, no entanto, um lago calmo no meio desta paisagem selvagem: a estadia dos bandoleiros na aldeia mexicana. Em outro filme de Peckinpah, Juramento de Vingança (Major Dundee, 1965), existe um interlúdio idílico muito semelhante; são vislumbres de uma felicidade impossível, um oásis de paz (...).
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Vivendo violentamente, os heróis de Peckinpah terão de desaparecer violentamente. E eles próprios desencadeiam a hecatombe em que sucumbem, por meio de um gesto de desafio, de arrogância, quase uma espécie de consciente auto-condenação à morte, algo no gênero da carga suicida que os índios do Velho Oeste costumavam fazer quando a batalha lhes parecia absolutamente perdida.
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O lugar de Meu Ódio Será Sua Herança dentro da História do Western parece-me, desde já, de primeiro plano, embora ainda seja cedo para verificar a importância da película na evolução do gênero cinematográfico mais tipicamente americano. De qualquer forma, considero que se está perante um filme admirável, lúcida e sensível meditação sobre a violência, o envelhecimento e a incapacidade para evoluir, prova cabal do enriquecimento e aprofundamento do Western (...).

 

Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969, 134')
Direção: Sam Peckinpah
Roteiro: Walon Green & Sam Peckinpah, baseando-se num argumento de Walon Green & Roy N. Sickner
Elenco: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan, Edmond O’Brien, Warren Oates, Jaime Sanchez, Ben Johnson, Emilio Fernandez, Strother Martin, L. Q Jones, Bo Hopkins, Dub Taylor, Alfonso Arau, Chano Urueta, Sonia Amelio, Aurora Clavel, Elsa Cardenas, Elizabeth Dupeyron
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Warner

 

Este texto foi transcrito do número duplo 155/156 da revista Celulóide (Rio Maior, Fernando Duarte Editor, novembro/dezembro de 1970, pp. 33-36)