Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

MAVERICK
André Barcinski



Quando adolescente, Mel Gibson passava as noites grudado na tela do televisor, assistindo a seu ídolo, James Garner, ganhando partidas de pôquer e matando bandidos no seriado Maverick. “Sempre achei que seria muito legal adaptar Maverick para um filme de Cinema”, diz Mel.
Vinte anos depois, Mel Gibson se tornou um astro e assumiu uma posição invejável em Hollywood: seus filmes já renderam mais de US$ 1 bilhão, e ele tem poder para realizar qualquer projeto. Hoje, o que Mel quer, Mel faz.
Há três anos, ele se interessou pelo roteiro do faroeste Renegades; mas uma confusão envolvendo a produtora Carolco enterrou o projeto. Foi então que o sócio de Mel na produtora Icon, Bruce Davey, veio com a idéia de fazer um filme baseado em Maverick. Mel não pensou duas vezes. O passo seguinte foi encontrar um roteirista capaz de condensar em duas horas uma série de TV que se estendeu por anos (foram 120 episódios, que a rede de televisão ABC levou ao ar de 1957 a 1962). William Goldman, um veterano roteirista de sucessos como Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969) e Louca Obsessão (Misery, 1990), acabou aceitando o trabalho. Ele adicionou ainda mais humor ao personagem Bret Maverick e criou alguns personagens secundários.
A história criada por Goldman mostra Bret Maverick lutando para levantar US$ 25 mil necessários para se inscrever num torneio de pôquer que será disputado num luxuoso barco no Rio Mississippi e dará US$ 500 mil ao vencedor. Em sua jornada, Bret cruza com uma linda vigarista profissional, Annabelle Bransford, e com um xerife carrancudo, Zane Cooper.
Não é segredo em Hollywood que os papéis de Annabelle e Zane haviam sido oferecidos a Meg Ryan e Paul Newman. Mas, tanto Meg quanto Paul, não aceitaram, por motivos pessoais, interpretá-los.
“A situação ficou feia”, lembra o diretor Richard Donner. “Nosso tempo estava se esgotando, e precisávamos arrumar rapidamente os atores para interpretar Annabelle e o xerife Cooper”. Foi aí que alguém sugeriu Jodie Foster. “A princípio, achei estranho”, confessa Mel Gibson. “Jodie não é o tipo de atriz que você chama para uma comédia leve como Maverick.” Bom, não custava tentar; e a produção fez o convite. “Nos últimos anos eu só havia trabalhado em dramas pesados, e achei que participar de Maverick seria uma ótima oportunidade de me divertir um pouco”, diz Judie Foster. Para o papel de Zane Cooper, Mel Gibson e Richard Donner resolveram convidar o Maverick original, James Garner. “Tinha medo de que ele ficasse zangado com o convite”, revela Donner. “Você sabe como esses atores veteranos são orgulhosos em relação a seus antigos papéis. Achamos que Garner não gostaria de assumir um papel secundário, enquanto o personagem que ele havia encarnado ficava para outro.”
Os temores de Mel Gibson e Richard Donner se dissiparam depois do primeiro encontro com James Garner: o ator ficou antusiasmado com  o renovado interesse pelo personagem Maverick, disse que aceitava interpretar  qualquer papel e concluiu: “Meu Deus, como é que vou me opor a ver Mel Gibson fazendo meu antigo papel? É um orgulho incrível!”
Maverick foi filmado em quinze semanas no deserto do Arizona, numa cidade cenográfica erguida à margem de um rio. Mel Gibson, Jodie Foster e James Garner são unânimes em afirmar que nunca se divertiram tanto numa filmagem. E, assistindo ao filme, dá para perceber que os atores estão se divertindo tanto (ou até mais) quanto a platéia. Richard Donner deu liberdade aos três para criar diálogos e inventar novas piadas.
Depois que Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992) praticamente fez renascer o Western, muitos filmes vieram em seu rastro. Todos dramáticos, sérios, carrancudos: GerônimoUma Lenda Americana (Geronimo, An American Legend, 1993), Posse – A Vingança de Jessie Lee (Posse, 1993), Tombstone – A Justiça Está Chegando (Tombstone, 1993), filmes que bebiam na fonte inspiradora de Sergio Leone e de seus faroestes psicológicos e densos. Agora, finalmente alguém resolve dar uma relaxada e fazer um faroeste mais solto, divertido. Maverick, é uma comédia passada no Oeste, não uma paródia do Oeste.
 O roteiro de William Goldman procurou dar um tratamento irônico a velhos ícones do Oeste. Um chefe indígena, interpretado por Graham Greene, acaba se revelando um picareta de quinta categoria. De certo modo, Maverick pode ser considerado um faroeste “politicamente incorreto”.
Goldman carregou seu roteiro de piadas, frases de efeito e reviravoltas. Algumas partes – como a engraçadíssima cena em que Maverick encontra o tal chefe indígena – funcionam. Outras são previsíveis e sem graça. No final, contam-se umas boas dez ou doze gargalhadas, o que é bem razoável, se considerarmos as comédias que têm sido produzidas atualmente.

“Eu recebi o roteiro numa quinta-feira, li na mesma tarde e aceitei o papel na sexta. No sábado, eu já estava fazendo algumas provas de roupas. Estava procurando por uma comédia havia dez anos, mas eu sabia que papéis dramáticos eram meu forte. Na verdade, eu não sabia que passos teria de dar para tornar a personagem ainda melhor. Em um drama, você sempre tem uma linha a seguir: você faz isso ou aquilo e pronto. (...) Eu apenas disse ao Richard Donner: ‘Bem, isto não é o que eu costumo fazer, então eu farei tudo o que você quiser.’ (...) O melhor de Maverick é que ele foge dos clichês do Western, no qual as mulheres são vistas sempre como mocinhas desprotegidas. Só que a vida no Velho Oeste era muito dura e muito arriscada para ter tantas mulheres indefesas. É por isso que Annabelle tem tanta personalidade.”
Jodie Foster

“O tipo de imoralidade casual do filme Maverick vem claramente da série de TV dos anos 1950 e 1960: a história de um jogador que prefere correr a brigar, e jogar pôquer a correr. Este Maverick se irrita facilmente com as coisas erradas. Ele é um cara muito mais preocupado em não sujar sua camisa da sorte do que em se livrar de ser enforcado. Em vários aspectos, Maverick está acima dos westerns tradicionais. O grande charme do filme é que ele vai ao ponto crucial de vários clichês do gênero e brinca com a maioria deles. Bom exemplo disso é o personagem Joseph (interpretado por Graham Greene), o chefe de uma tribo indígena: ele é totalmente civilizado e sem os clichês dos índios mostrados nos westerns tradicionais.”
Mel Gibson

 

Maverick (Maverick, 1994, 127')
Direção: Richard Donner
Roteiro: William Goldman, baseando-se na série de TV criada por Roy Huggins
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, James Coburn, Graham Greene, Alfred Molina, Paul L. Smith, Max Perlich, Dub Taylor, Geoffrey Lewis
Disponível em DVD no Brasil
Distribuidora: Warner

 

Este texto foi transcrito do número 85 da revista Set (São Paulo, Azul, junho de 1994, pp. 16-20)