Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

MATT MARRIOTT
José de Matos-Cruz



A saga de Matt Marriott, embora tendo como cenário o mítico Oeste dos Estados Unidos, nasceu na Inglaterra, onde foi publicada, a partir de 1955, em tiras diárias no jornal londrino The Evening News. São seus autores: Tony Weare, nos desenhos; e James Edgar, nos roteiros (as primeiras histórias de Matt Marriott foram escritas por Reg Taylor).
(...)
Existe em Matt Marriott, desde logo, uma densidade dramática jamais vista em qualquer outra história em quadrinhos de Western. (...) Quer tomando a série no conjunto, em que notamos um (...) tom de odisséia; quer apreciando um  único episódio, com toda a sucessão e carga dos conflitos que se intensificam até uma inevitabilidade trágica, sentimos o cruel determinismo que ronda todos os personagens.
Quanto aos desenhos, Matt Marriott é insuperável. Tony Weare, com seu traço aparentemente tosco, atinge duplamente uma sensação de relevo e de profundidade. É todo um trabalho meticuloso, por vezes esquemático, a fim de obter importante contraste entre luz e sombras. Os rostos parecem talhados em madeira ou modelados a cinzel – o que lhes dá uma expressão animal (os vilões), desgastada ou até mesmo etérea (as mulheres jovens)... Reparem como o desenho resiste a uma inspeção à lupa; apreciem também a exatidão dos cenários, a força dos ambientes ou da paisagem.
Muito haveria a especular sobre a psicologia dos heróis: a bondade, a sensatez e solidez de caráter de Matt Marriott; a astúcia, a energia belicosa e a generosidade de Luke “Powder” Horn, um ex-sargento do Exército. Matt e Luke (...) não são paladinos triunfalistas e lendários, mas autênticos perdedores (ante a adversidade), que apenas se impõem graças à sua tenacidade e que são perseguidos pelos traumas do seu vagabundear. Mais que expoentes, são instrumentos eficazes numa intriga fatalista, que constantemente se repete e os reclama, com insuspeitáveis conseqüências...

“Matt Marriott era um jovem fazendeiro (...). Não era um pistoleiro. Só usava uma arma, um rifle, para caçar. Mas o destino provocou uma grande curva na linha de sua vida. Certo dia, uma grande manada vinda do Texas, para ser embarcada em Dodge City, literalmente passou por cima de seus pais e de sua fazenda. Matou e arruinou a todos e a tudo. O jovem Matt, procurando vingança, foi então adestrado no uso das armas por seu amigo Luke “Powder” Horn, que também teve seu irmão morto e sua fazenda destruída pela manada. Matt desafiou para um duelo o poderoso texano responsável por tudo. Venceu-o com um tiro certeiro. Esse tiro, no entanto, acertou também o próprio destino de Matt Marriott. Sentindo-se um matador e amargurado com a perda dos pais e da fazenda, ele percebeu que tudo mudara para si. Não mais quis ser um fazendeiro. Partiu, então, em companhia de “Powder” Horn, à procura de outros lugares. Tornaram-se dois andarilhos, sem rumo e sem propósito na vida. (...) No fundo, são dois perdedores. Vencem as batalhas e os conflitos exteriores (aonde eles vão, sempre encontram pessoas que necessitam de armas e situações justiceiras). Mas intimamente são dois vagabundos, incapazes de se fixar em qualquer parte, sempre com pouco dinheiro nos bolsos e uma certa quantidade de incertezas dentro de si.”
Luiz Antônio Sampaio

 

Este texto foi transcrito do artigo “Matt Marriott um ‘Western’ Insuperável” [Mundo de Aventuras (Vª série), número 292, Lisboa, Aguiar & Dias, 10 de maio de 1979, p. 2], de José de Matos-Cruz