Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

KEN PARKER
Marcos Faerman



Alguns westerns clássicos operam em universos que se enquadram nos cânones do épico, segundo o que estabeleceu as sabidas digressões do mestre Hegel, em sua massuda – mas não maçuda – Estética. (...)
O Western vive, nas duas últimas décadas, um paradoxo. A produção cinematográfica vai, nos EUA, quase à marca do zero, no que é acompanhada pelos quadrinhos. O Western ressuscita, no entanto, na Europa, onde ícones do Faroeste alimentam, às vezes de forma quase caricatural, o chamado Spaghetti Western, que vai do horror de certos filmes, extremamente primários, até o sublime Era uma Vez no Oeste, de Sergio Leone.
A produção de quadrinhos européia cria algumas belezas, como Blueberry, do genial francês Jean Giraud e seu parceiro Jean-Michel Charlier. É neste contexto que surge o elegante personagem Ken Parker. E vocês sabiam que Ivo Milazzo, o desenhista de Ken Parker se inspirou... na cara do Robert Redford?
Gostaria de imaginar uma hipótese para se entender porque o Western terminou “pegando” na Europa, em particular na Itália e na França. (...) Séculos atrás, a cultura romântica européia morria de amores pelo ambiente “selvagem” e pitoresco da América. Até mesmo René Chateaubriand, um fascinado pelo exotismo, escreveu uma obra em que seus heróis são indígenas (índios de alma européia, mas índios, vá lá!). E Rousseau se inspirou também no mundo americano. Não por acaso, multidões de toda a Europa emigraram para os EUA e se decepcionaram, porque não corria nem mel, nem leite, nas ruas escuras e sujas onde foram parar.

As histórias de Ken Parker ora pendulam para um poema da natureza, com tons épicos, ora para o western intimista. A trama narrativa é delicada e complexa. E pode arrastar o herói a situações estranhas. (...)
Ken Parker, enfim, é um tipo bastante diferente dos heróis tradicionais do Western (...).
Ken é um cavaleiro solitário debaixo de um céu que anuncia violências. Ele vai enfrentar estas tempestades – mas nunca será seduzido pela solução, que sabe que passa por seu despojado rifle de uma bala. Ele é apaixonado pela natureza, sim, mas, estranhamente, também pelos livros...

E que outro herói do Faroeste anda, como Ken, com um Shakespeare debaixo do braço? É claro que sua vocação o leva, ainda, a amar apaixonadamente Walt Whitman. Até posso imaginá-lo, debaixo de uma árvore, lendo “O Canto da Estrada Aberta”:
“A pé e de coração leve,
eu enveredo pela estrada
aberta, saudável, livre;
o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo,
levando-me aonde eu queira.”

(tradução de Geir Campos)

Ele também é louco por Henry David Thoreau, o filósofo que abandonou as cidades e foi viver numa floresta. Para resgatar a inteireza do ser humano. Thoreau, que nunca esquecia os livros (muito menos os clássicos), disse: “Que são os clássicos? Não são eles o registro dos mais belos pensamentos humanos?”
Já em Walden (1854), Thoreau escreveu:
“Não é de se admirar que, em suas excursões, Alexandre, levasse consigo A Ilíada dentro de um cofre. A palavra escrita é a relíquia por excelência.”
Ken Parker ali vai. Com seu rifle, seu cavalo. E seus livros – maravilhosos (...).

 

Este texto foi transcrito do artigo “Tributo a um Herói Solitário”, que Marcos Faerman escreveu para o álbum Ken Parker – Os Cervos & Um Hálito de Gelo (São Paulo, Ensaio, 1994, pp. 5-6), de Giancarlo Berardi & Ivo Milazzo