Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

KATY APACHE
Marco Aurélio Lucchetti



Em 1979, a Grafipar – Gráfica Editora, de Curitiba, Paraná, lançou o primeiro número de Aventuras em Quadrinhos, um gibi com 36 páginas e em formatinho (13, 5x20,5cm, que era, então, o formato mais usado pelas editoras brasileiras que publicavam revistas de histórias em quadrinhos). E foi nesse número, na história “A Forasteira”, que surgiu uma das mais sedutoras personagens dos quadrinhos do gênero Western: Katy Apache.
Criada pelo quadrinhista brasileiro Claudio Seto (1944-2008), Katy Apache tem longos cabelos louros, um rosto bonito e cheio de sardas, olhos claros, lábios voluptuosos, um corpo perfeito e pernas roliças; é quase sempre mostrada vestida com um poncho que constantemente deixa entrever suas nádegas polpudas; usa um cinturão com dois coldres e um par de botas negras; e sabe manejar com grande destreza seus revólveres Smith & Wesson.
E a história de Katy Apache pode ser assim resumida: por volta de 1784, um meteorito caiu no sertão da Bahia, perto do Riacho de Bedengó. Durante mais de cem anos, inúmeros estudiosos se dirigiram até esse local, a fim de pesquisar o meteorito, que ficou conhecido como a Pedra de Bedengó. Um dos estudiosos, Jorge de Nassau, um geólogo procedente de Recife, Pernambuco, chegou ao sertão baiano em 1873, conheceu uma linda moça chamada Francisca Paraíba, casou-se com ela e teve duas filhas: Catarina, nascida em 22 de julho de 1874, nas proximidades de Monte Santo, na Bahia; e Severina. No início de 1878, ao saber que um meteorito semelhante ao de Bedengó havia caído no Oeste norte-americano, Jorge partiu para os Estados Unidos, levando a esposa e Catarina (por ser muito pequena para viajar, Severina ficou em Monte Santo, com os avós maternos). Infelizmente, Jorge não conseguiu pesquisar o meteorito caído em terras norte-americanas, pois sua expedição foi atacada por apaches. Aqueles que faziam parte da expedição acabaram sendo mortos. As únicas exceções foram Red Fox, um mestiço (ele tinha sangue de índio), e Catarina. Levada para uma aldeia apache, a menina recebeu uma criação indígena e tornou-se conhecida como Katy Apache. Em 1889, quando a aldeia em que vivia terminou dizimada por soldados da Cavalaria, Katy voltou à civilização  e reencontrou Red Fox, que lhe contou toda a história de seu passado. Em seguida, Katy foi adotada por várias famílias de posse; mas não conseguiu se integrar na vida doméstica dos brancos e fugiu para o mato. Então, conheceu o caçador de recompensas Jackal, que estava ferido. Curou-o, usando seus conhecimentos de medicina indígena; e Jackal ensinou-lhe a arte de sobreviver pelo gatilho. Assim, Katy, que desejava juntar dinheiro para vir ao Brasil à procura de sua irmã Severina, tornou-se uma caçadora de recompensas e começou a caçar os fora-da-lei do Oeste dos Estados Unidos.
Vale destacar que numa das histórias de Katy Apache, “Os Caçadores de ‘Caçadores de Recompensas’”, publicada no número 5 de Aventuras em Quadrinhos, há alguns personagens cujos nomes fazem referência a editores e quadrinhistas brasileiros: Eduard Octa d’Assuntion (uma referência a Otacílio d’Assunção Barros, que, na época, era diretor da Editora Vecchi, do Rio de Janeiro), o xerife de San Sebastian, uma pacata cidade na fronteira com o México; Frank Ross (uma referência a Franco de Rosa, que, então, escrevia roteiros de histórias em quadrinhos para a Grafipar), um ex-caçador de recompensas e amigo de Katy; e os irmãos Wilde, Watson e Bob Portell (uma referência aos irmãos Wilde, Watson e Roberto Portela, que, nessa época, realizavam histórias em quadrinhos de Western para, entre outras, as revistas Chet e Histórias de Faroeste, da Vecchi), que prometeram matar todos os caçadores de recompensas.
Apesar de ser uma personagem simpática (ela é uma prova de que há mulheres sedutoras nas histórias em quadrinhos de Western), Katy Apache teve uma curta existência e protagonizou poucas histórias – histórias essas produzidas por Claudio Seto e Mozart Couto; e publicadas nos gibis Aventuras em Quadrinhos, Katy Apache, Jackal e Almanaque Faroeste.