Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

JONAH HEX
Luiz Antônio Sampaio



Ele nasceu na época errada. Apareceu num tempo em que a maioria de seus colegas já desaparecera ou era uma minoria que lutava desesperadamente para se manter viva. O tempo do cowboy se fora. Naquele começo dos anos 1970, as façanhas dos cowboys do Velho Oeste já não eram mais contadas nos comic books (gibis), pois poucos leitores acreditavam nelas ou ainda gostavam delas. Eram os dias dos super-heróis. Ironicamente, estes, que foram “mortos” pelo gênero Western a partir de 1948, estavam de volta e não abriam espaço para que os cowboys, xerifes, pistoleiros, índios e pioneiros voltassem às páginas das revistas norte-americanas de quadrinhos. Mas foi justamente nessa época de dias difíceis que nasceu Jonah Hex.
Ele surgiu em “Welcome to Paradise” (“Bem-Vindo ao Paraíso”), uma história muito bem elaborada, tanto nos desenhos (de Tony DeZuñiga) como no roteiro (de John Albano). E a intenção era que fosse personagem de mais algumas histórias. Mas certamente ninguém, ninguém mesmo, poderia sequer imaginar o sucesso que o personagem faria. Jonah Hex não protagonizou apenas mais algumas histórias. Ele fez muito mais que isso. Ele “cavalgou” durante treze anos e meio, tornando-se uma exceção, um quase alienígena naquela casa editorial chamada DC Comics, onde praticamente só viviam super-heróis. Um caso estranho este Jonah Hex!
Os primeiros comic books dedicados inteiramente ao gênero Western parecem ter sido Star Ranger e Western Picture Stories, datados de 1937 e publicados, respectivamente, por Centaur Publications e Quality Comics Group. Entretanto, foi somente nos anos 1940 que o gênero se afirmaria de maneira definitiva nos gibis norte-americanos. Começou com as revistas Red Ryder Comics e Tom Mix Comics, lançadas em 1940; e, a partir de 1948, quando começaram a ser editados inúmeros gibis dedicados a narrar histórias de cowboys, tornou-se um dos carros-chefes da indústria de comic books. Foram sete ou oito anos prósperos para o gênero; depois, iniciou-se o declínio.
No começo da década de 1970, a Charlton lançava ainda seus gibis de Faroeste; mas era um material muito fraco, extremamente repetitivo e visualmente pobre. A Marvel publicava, com relativo sucesso, alguns títulos do gênero, dedicados a reprises de material produzido pela editora nos anos 1950. Foi quando a DC resolveu fazer o mesmo. Então, reviveu, em 1970, um velho título, All-Star Western, criando para ele algumas séries novas, como Billy the Kid e El Diablo (desenhada por Gray Morrow). A revista trazia um material bem-feito, mas não muito expressivo para um gênero já tão explorado. Aí, no número 10, datado de março de 1972, publicou uma história de dezesseis páginas que apresentava um novo herói (epa, herói mesmo?): Jonah Hex.
Joe Orlando era o editor da revista All-Star Western e estava procurando, junto com o roteirista John Albano, alguma coisa nova, diferente, para a revista, pois o que vinha sendo publicado até então não estava agradando muito ao leitor. Foi Albano quem veio com a idéia de criar um caçador de recompensas, um pistoleiro de caráter mau, uma espécie de anti-herói. Orlando aceitou a idéia de um caçador de prêmios, mas relutou em criar um personagem de personalidade má e negativa. Se havia a pretensão de se criar um herói para uma nova série, ele teria de apresentar um aspecto bom, positivo, justiceiro. Orlando criou então o lado bom de Jonah Hex, e Albano manteve o aspecto negativo do personagem.
Os desenhos da história foram entregues ao filipino Tony DeZuñiga, que conseguiu fazer um bom trabalho. Jonah Hex chegava à cidade de Paradise Corners arrastando dois corpos de bandidos que matara pela recompensa. Mal recebeu o dinheiro, saiu atrás de outras cabeças que estavam a prêmio. Matou mais quatro bandidos; pagou a dívida de uma jovem viúva, para lhe salvar a fazenda; despertou a raiva da pobre viúva e a indignação dos bons cidadãos do lugarejo; e foi idolatrado por um garotinho, filho da viúva. Já no primeiro episódio da série, Hex mostrava ser um personagem diferente, algo nunca visto em nenhuma outra história do gênero. Um pistoleiro com uma parte do rosto deformada e parecendo atormentado por um duplo aspecto de sua personalidade – o lado bom, humanitário; e o lado do matador impiedoso.
Jonah Hex tornou-se o astro de All-Star Western, que, a partir do número 12 (datado de julho de 1972), teve seu título mudado para Weird Western Tales. Tanto Albano como DeZuñiga mostraram-se bastante capazes em seu trabalho. Assim, continuaram realizando as histórias. Albano, no entanto, deixou a DC após onze histórias de Jonah Hex. Michael Fleisher foi seu substituto, após uma única história escrita por Arnold Drake. Foi uma substituição feliz, pois Fleisher acabou desenvolvendo de forma mais completa a complexa personalidade de Jonah Hex e elaborou as melhores histórias do personagem. Escreveu tramas perfeitas, demonstrando grande talento durante todos os anos em que se encarregou dos roteiros da série. Fleisher roteirizou as aventuras de Jonah Hex até o seu final, em 1985 (ele só não escreveu três histórias, publicadas em 1978).
Na parte dos desenhos, no entanto, as coisas não correram da mesma forma. Houve muita mudança durante os treze anos e meio da série. Muitos desenhistas visualizaram as façanhas de Jonah Hex. Tony DeZuñiga deixou a revista após desenhar quatorze histórias. Foi substituído por Noly Panaligan (quatro histórias), George Moliterni (cinco histórias) e Jose Garcia-Lopez (três histórias). Os traços de Panaligan já eram mais grosseiros, não tinham a mesma elegância e firmeza dos de Tony DeZuñiga. Moliterni e Garcia-Lopez fizeram bons trabalhos. Mas as mudanças de desenhistas não pararam por aí. E, por exemplo, Doug Wildey desenhou uma história de Jonah Hex.
Essas mudanças constantes de desenhistas – muitas vezes até desnecessárias – normalmente irritam os leitores, já que desfiguram o aspecto visual de uma série quadrinhística. A presença de um único desenhista (desde que seu trabalho seja bom) só serve para enriquecer a obra, dar-lhe toques mais pessoais. Infelizmente, nos gibis norte-americanos, essas mudanças, que ocorrem por razões diversas, são inevitáveis. Cabe então aos editores e roteiristas a tarefa de manter a homogeneidade das séries. Foi o que aconteceu com Jonah Hex. Os roteiros bem elaborados de Michael Fleisher e mais o trabalho seguro dos editores (primeiramente, Joe Orlando; depois, Larry Hama; e, por fim, Ross Andru, além de um breve período em que o próprio Fleisher se encarregou da edição) mantiveram uma incrível unidade geral em Jonah Hex.
O número 38 (datado de janeiro/fevereiro de 1977) de Weird Western Tales foi o último a trazer histórias de Jonah Hex. E isso aconteceu porque o personagem passou a ter revista própria que levava seu nome.
Na revista Jonah Hex, a freqüente, irritante e desnecessária mudança de desenhistas continuou. E não resta dúvida de que o melhor desenhista da série foi Tony DeZuñiga, que, depois de uma ausência de 53 aventuras consecutivas, retornou ao personagem no número 39 (datado de agosto de 1980) de sua revista. A partir do número 41, DeZuñiga iniciou uma longa colaboração com o desenhista Dick Ayres, um veterano no gênero Western. Foram 36 histórias muito bem desenhadas pela dupla Tony DeZuñiga & Dick Ayres (houve uma feita por DeZuñiga e Ross Andru).

 

A HISTÓRIA DE JONAH HEX

Jonah Hex era um amargurado ex-oficial da Guerra de Secessão, da qual saiu acusado injustamente de traidor. Não muito tempo depois, teve uma parte de seu rosto desfigurada por um tomahawk índio em brasa. Tornou-se, então, um caçador de recompensas perambulando pelo Oeste. No início, dava a impressão aos leitores de que era um típico anti-herói, uma espécie de negação de tudo que o gênero já havia apresentado nos comic books. O rosto deformado, matador impiedoso, sempre fugindo a qualquer convívio com as outras pessoas, uma visão amarga de mundo... No entanto, esses aparentes aspectos negativos do pistoleiro não o tornavam menos herói aos leitores. Seus métodos pouco ortodoxos de fazer justiça estavam, na realidade, de acordo com os desejos dos leitores. Jonah Hex talvez tenha sido muito mais um personagem de um western adulto do que propriamente um modelo de anti-herói. Era bastante inusitado este Jonah Hex, isso ninguém pode negar.
Ele foi um dos raríssimos heróis do Faroeste que acabou contraindo matrimônio. E ainda por cima com uma chinesa (na época em que se passam as histórias de Jonah Hex, os chineses eram vistos como uma raça inferior nos Estados Unidos)! Jonah conheceu Mei Ling no número 23 de sua revista. Ela esteve ausente das histórias durante um bom tempo e, quando voltou, logo levou Hex ao altar. Mas o casamento durou pouco. Não se conformando com a índole de matador do marido, Mei Ling deixou-o. No fundo, ela não servia mesmo para o herói, tinha uma personalidade totalmente oposta à dele. Tornara-se uma chata para Jonah Hex. Abandonando-o, ela o deixou livre (o estado natural dos heróis) novamente. A outra garota de Jonah Hex, a loura Emmylou Hartley, acabou se tornando mais simpática, pois tinha a mesma natureza livre e selvagem dele.
O Oeste apresentado em Jonah Hex não era exatamente o verdadeiro; porém, estava mais de acordo com o real do que aquele mostrado, até então, nas histórias em quadrinhos norte-americanas. É claro que Red Ryder (de Fred Harman) e Casey Ruggles (de Warren Tufts) foram mais autênticas; mas não eram produzidas para os comics books, e sim para os jornais. Por outro lado, nem a própria existência de Jonah Hex podia ser levada a sério. Era muito fantástica. Liquidou umas 340 pessoas (e isso sem contar índios e soldados mortos durante batalhas), usando armas de fogo, faca etc. Realmente, muito fantástico este Jonah Hex, para ser levado a sério!
Apesar de toda a sua vida violenta, Jonah Hex viveu até a velhice; mas jamais abandonou as armas e a profissão de caçador de recompensas. Fazendo um avanço até o futuro, numa dessas incríveis liberdades que o campo da ficção permite, Michael Fleisher (roteiro) e Russ Heath (desenhos) revelaram, numa história de trinta páginas, “The Last Bounty Hunter”, publicada em Jonah Hex Spectacular (outono de 1978), o porvir do famoso caçador de prêmios. Nessa história, Jonah Hex estava envelhecido (com uns setenta anos de idade), vivia maritalmente com uma índia e ainda caçava bandidos pela recompensa. Uma presença incrivelmente anacrônica num mundo que começava a mudar, num Oeste que começava a ver seus primeiros automóveis e a lei dos tribunais. Era o começo do século XX. E Jonah Hex, um monumento vivo do Velho Oeste, não poderia sobreviver nesse mundo em transformação. Assim, Hex morreu, assassinado covardemente numa mesa de jogo de cartas. Uma aventura grotesca, embora bem estruturada, na qual um Jonah Hex mumificado ainda continuava matando.

“Ele foi um herói para alguns, um vilão para outros; e, por onde andou, as pessoas falavam seu nome aos sussurros. Não tinha amigos esse Jonah Hex... E teve apenas duas companhias: uma era a morte... a outra, o cheiro acre de fumaça das armas...”
“Uma Disputa com os Gallaghers!”, Weird Western Tales número 26 (janeiro de 1975)

A longa carreira de Jonah Hex na DC Comics foi composta de 122 aventuras, ou seja, 76 histórias completas e mais quatorze narradas em duas ou três partes. Foram mais de 2300 páginas contando a saga do caçador de prêmios.
Em 1984, as vendas de Jonah Hex estavam indo mal. O futuro da revista estava bastante incerto. Tudo indicava um cancelamento inevitável em breve. Foi quando, nos bastidores da DC, homens gananciosos, pensando unicamente em mais um punhado de dólares, traçaram o destino de Jonah Hex. O número 88 da revista fora o último desenhado por Tony DeZuñiga. A edição seguinte, pessimamente desenhada por Mark Texeira & Dennis Jenke, já evidenciava um triste final para a publicação. Os três números finais (Jonah Hex deixou de circular no número 92, datado de agosto de 1985) foram desenhados por Gray Morrow, num estilo não muito adequado ao gênero Western. E, no número 92, no final da história, a grande surpresa: Jonah Hex simplesmente desapareceu. Sumiu, no sentido exato da palavra, quando ia sacar a arma para enfrentar um adversário. A explicação só seria dada no primeiro número de sua nova revista, Hex: ele atravessou a barreira do tempo e foi parar no século 21, num mundo semidestruído, transformando-se numa espécie de Mad Max. Hex não teve sucesso: deixou de circular no número 18 (datado de fevereiro de 1987) e foi esquecida. Tudo merecidamente. Aquele Hex do futuro era produto da imbecilidade editorial da DC. Melhor esquecê-lo por completo e dizer que nunca existiu. O herói viveu no Velho Oeste. Aquele sim foi o verdadeiro e único Jonah Hex.

 

Luiz Antônio Sampaio é colecionador e pesquisador de Quadrinhos