Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

JOHN FORD
Georges Sadoul



O monumento do cinema americano. Realizou mais de 125 filmes. Estreou na década de 1910, com uma abundante série de westerns, da qual se destaca o interessante filme O Cavalo de Ferro. A partir de 1930, aparecem A Patrulha Perdida, O Homem Que Nunca Pecou e sobretudo O Delator. Após uma fase negativa, voltou a afirmar-se com No Tempo das Diligências e Vinhas da Ira (baseado em romance de John Steinbeck). Depois, instalou-se solidamente à sombra de uma fama merecida e multiplicou as suas produções, distinguindo-se principalmente nos westerns (...). Generoso e paternalista, ora criticando o Exército, ora ultramilitarista, lutando contra o preconceito e a sua obediência, bom artista ou bom comerciante, épico ou familiar, ele foi, com o seu temperamento poderoso e as suas contradições, o melhor continuador de Thomas Harper Ince. Numa parte dos seus melhores filmes podemos encontrar um tema comum: o homem perseguido pela morte ou por perigos inquietantes. A propósito disso, declarou a Jean Mitry em 1956: “Creio que isso é uma maneira de confrontar os indivíduos. Esse momento trágico permite definirem-se, tomarem consciência daquilo que são, sair da sua indiferença e da sua inércia, da sua convenção (...). encontrar o excepcional na mediocridade, o heroísmo no quotidiano, é este o impulso dramático que me convém. É como encontrar o cômico na tragédia.” Disse também: “É no modo de contar a história, na realização, que um cineasta se pode definir. As situações são apenas um ponto de partida que é preciso ultrapassar.” Falou ainda: “Interesso-me pelo folclore do Oeste (...). Eu próprio já fui cowboy. Gosto do ar livre, dos grandes espaços. O sexo, a obscenidade e os degenerados são coisas que não me interessam.” Por fim, definiu deste modo a sua escravidão de criador: “Existem para um diretor imperativos comerciais que são indispensáveis respeitar. Na nossa profissão, um fracasso comercial é uma condenação. O segredo está em fazer filmes que agradem ao público e chegar assim a introduzir neles a sua personalidade. (...) Na minha obra não há dez filmes dos quais eu possa dizer que cumpriram o meu gosto e as minhas afinidades, porque ser o seu próprio produtor, mas estar submetido aos distribuidores não dá uma liberdade maior.”

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações, do livro Dicionário dos Cineastas (Dictionnaire des Cinéastes, tradução de Graziela Poeira & Júlia Ferreira, Lisboa, Livros Horizonte, 1979, pp. 121-122), de Georges Sadoul