Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

ERA UMA VEZ NO OESTE
Paulo Perdigão



Neste pretensioso western de Sergio Leone, a esperança é a primeira que morre. Pelo prólogo (uma paródia de Matar ou Morrer, com três pistoleiros invadindo uma estação ferroviária e ficando à espera do herói), Era uma Vez no Oeste promete milagres em matéria de tensão dramática e humor-negro. Mas, dez minutos depois, antes mesmo que a aventura comece a engrenar (o que, a rigor, não chega a acontecer), os efeitos bombásticos e fáceis colecionados pelo filme esgotam o seu potencial de interesse. E Leone, que mais uma vez prometeu fazer uma crítica da mitologia do Oeste – personagens sujos e abjetos, a paisagem morta, em vez do glamour dos westerns americanos – termina apresentando apenas mais um conto com muito sangue e sem qualquer moral.
Talvez pretendesse Leone retratar o código do Far-West como se ele fosse interpretado por Maquiavel. Parece, entretanto, que o único objetivo do filme é exibir os virtuosismos de um cineasta narcisista. Claro que John Ford resolveria a mesma história com rapidez, concisão e eficiência. Leone está mais preocupado em provar aos céticos os conhecimentos que adquiriu sobre o Oeste em estágio feito na Biblioteca Nacional de Washington e assistindo à retrospectiva de westerns clássicos. É verdade que a Paramount cortou 21 minutos da versão original italiana, ao distribuir o filme nos Estados Unidos (a versão exibida no Brasil tem mais quarenta minutos de cortes), o que torna demasiadamente elíptica a narrativa e confusas as relações entre os personagens. Mas essa atenuante não desculpa a pose intelectual, o tom pomposo e pueril, a solenidade ridícula, o ar contemplativo e vazio que percorrem a fita inteira. Não se sabe porque, afinal, Leone fez questão de cercar de cuidados a produção, reconstituindo ambientes, figurinos e objetos com base em pesquisas feitas até mesmo nos arquivos da America Railways.
Quem viu os westerns anteriores de Leone – Por um Punhado de Dólares (Per un Pugno di Dollari, 1964), Por uns Dólares a Mais (Per Qualche Dollaro in Piú, 1965) e Três Homens em Conflito (Il Buono, il Brutto, il Cattivo, 1966) –, só encontrará duas novidades em Era uma Vez no Oeste: uma mulher, Jill McBain (Claudia Cardinale), num papel principal; e o fato de Charles Bronson, o novo “homem sem nome” agir por vingança pessoal e não mais “por um punhado de dólares” como Clint Eastwood fez nas três aventuras anteriores. De resto, Era uma Vez no Oeste repete a mesma cansativa sucessão de close-ups, fixando em techniscope o rosto ou só os olhos dos atores – uma infração completa das leis do Western, gênero que privilegia os grandes planos gerais. Traz as mesmas imagens compostas com rigor coreográfico e repletas de pormenores, cuja atmosfera parece sempre prestes a explodir. Os mesmos duelos executados como um ritual ou um balé. Os mesmos silêncios demorados antes que os atores comecem o seu diálogo lacônico. Sobretudo a mesma música de Ennio Morricone, com oratórios que ficariam melhor no La Scala e agridem covardemente o espectador, já esgotado e sem paciência.
Por mais que Leone fizesse na tentativa de conferir autenticidade ao seu projeto mais caro (custou cinco milhões de dólares) e mais ambicioso (o filme foi rodado parcialmente nos Estados Unidos), prevalece o tom de romance picaresco à italiana. Nem a participação de atores celebrizados pelo verdadeiro Western americano (Henry Fonda, Charles Bronson, Woody Strode), e nem a realização de algumas cenas no próprio Oeste creditam cor local a essa bizarra caricatura. Leone subverte personagens e situações típicas do Western para servir às necessidades de seu exibicionismo pessoal. Se os seus personagens falam pouco é porque pensam pouco. Se eles se escondem numa aura de mistério é para disfarçar a sua falta de conteúdo. Leone deve ter achado inteligente trocar a velha moral do Oeste por uma fórmula nova (o Mal contra o Mal) e inverte os papéis dos atores (Fonda, o mocinho, surge em trajes de facínora mercenário; Bronson, o bandido, aparece como forasteiro amistoso e simpático). Esse jogo entre amigos deve ter divertido bastante Leone e seus co-argumentistas, entre os quais figura um intelectual engajado, Bernardo Bertolucci, num momento de fraqueza.
O pior é que, de vez em quando, Leone dá sinais de que está começando a se levar a sério demais como artista. “Abordo o Western com grande amor, com muita ironia, buscando sempre a autenticidade.” Era uma Vez no Oeste aspira a ser um grande mural do que foi o Oeste dos pistoleiros e sua mudança para a civilização com a chegada dos trilhos da ferrovia. À maneira de Meu Ódio Será Sua Herança, retrata personagens condenados à desaparição histórica e que terminam todos mortos ou em fuga. Uma imagem desnecessária, já que mais de mil e trezentos westerns americanos mostraram a mesma coisa. Sem mais novidades a dizer, Leone anuncia que este foi seu último western e confessa, modestamente: “Não quero parecer um especialista.” Os críticos apoiaram seus planos de mudar de gênero. Talvez dê certo.

 

Era uma Vez no Oeste (C’Era una Volta il West, 1968, 165')
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Donati & Sergio Leone, baseando-se numa história de Dario Argento, Bernardo Bertolucci e Sergio Leone
Fotografia: Tonino Delli Colli
Música: Ennio Morricone
Elenco: Henry Fonda, Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson, Frank Wolff, Gabrielle Ferzetti, Keenan Wynn, Paolo Stoppa, Marco Zuanelli, Lionel Stander, Woody Strode, Jack Elam
Disponível no Brasil em DVD (duplo)
Distribuidora: Paramount

 

Este texto foi transcrito do número 31 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, janeiro/fevereiro de 1971, pp. 13-14)