Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

100 RIFLES
Antonio Moniz Vianna



1912. México varrido por interminável onda de revoltas, ambições pessoais determinando ações políticas – tempo bom para terrorismo e massacres. Em Sonora, as melhores terras ainda pertencem aos yaquis; e por elas deve passar a estrada de ferro americana que ligará os dois países. O progresso, representado pelo diretor da ferrovia (Dan O’Herlihy), associa-se passivamente à violência instituída pelo general Verdugo (Fernando Lamas), governador de Sonora. Honrando o nome, Verdugo é um matador de yaquis: rebeldes ou suspeitos são pendurados nas árvores e nos postes, para economizar munição, ou constituem alvo do pelotão de fuzilamento já cansado de apertar o gatilho, para economizar tempo e trabalho. Seja qual for o processo, os índios serão chacinados. Ao longo de toda a narrativa, a câmara focaliza a rotina sinistra do genocídio, o vertiginoso crepúsculo de uma raça.
(...) São três os personagens centrais: uma índia, Sarita (Raquel Welch), órfã de um yaqui enforcado por Verdugo e com um ímpeto de guerrilheira que lembra mais Claudia Cardinale do que 100 Rifles lembra Os Profissionais (The Professionals, 1966); o mestiço Yaqui Joe (Burt Reynolds), que cruzou a fronteira após ter assaltado um banco em Phoenix, no Arizona; e um policial negro, Leydecker (Jim Brown), que persegue Yaqui Joe, pensando na recompensa modesta (duzentos dólares) e na efetivação no cargo de xerife. Nota: Yaqui Joe emprega os dólares roubados (seis mil) na compra de cem rifles necessários à resistência dos yaquis.
São três personagens: um negro, uma índia, um mestiço. Nenhum branco (...). Mas uma das preocupações do filme é a questão racial: o roteirista Clair Huffaker e o diretor Tom Gries conseguem relacioná-la com a questão social da luta contra a opressão e o terrorismo em Sonora. Numa cena, voltando à aldeia incendiada pelos homens de Verdugo, Lyedecker verifica que todas as crianças foram levadas como reféns numa carroça. Toma, então, a decisão de aderir à causa dos yaquis; e, depois (...), decide também lançar-se sobre Raquel Welch. Os espectadores, provavelmente, não verão, sob o corpo negro e atlético de Jim Brown, uma índia chamada Sarita, mas a atriz branca e rainha do sex-appeal no cinema atual. Na história, um caso de miscigenação, só; mas, na aparência, um exemplo de integração racial. Não adianta procurar a verdadeira face – se as aparências enganam, o objetivo da seqüência foi plenamente alcançado. (Note-se que a miscigenação sempre foi um fenômeno normal no Oeste e freqüente no Western: mas a inserção no gênero da filosofia sexo-integracionista, de elaboração mais recente, é apenas um anacronismo bem-intencionado).
Mesmo sem ser um dos roteiros mais exemplares de Clair Huffaker, o de 100 Rifles proporcionou a realização de um filme movimentado, em marcha permanente e acelerada. A imagem é forte, embora não surpreendente nem excepcional (o fotógrafo é um espanhol, Cecilio Paniagua); e o filme foi rodado na região de Almería, na Espanha, já que o produtor não teve permissão das autoridades mexicanas para utilizar os décors reais de Sonora. A montagem (de Robert Simpson) é regularmente eficaz; a música de Jerry Goldsmith é boa, mas um tanto intelectualizada (...). A interpretação é correta com Burt Reynolds (...), não tanto com Jim Brown (que jamais será um segundo Sidney Poitier) e surpreendente com Fernando Lamas. Este encontra no papel do general Verdugo a melhor oportunidade de sua carreira, já encerrada a fase do galã, mas abrindo-se subitamente a do ator característico: embora argentino (nasceu em Buenos Aires, em 1915), Lamas surge agora um pouco na linha de um Emilio Fernandez ou um Pedro Armendariz, que interpretaram vilões mexicanos perfeitamente clássicos; e, até no tipo de bigode, já não há vestígio do antigo (e medíocre) latin lover.
Com 100 Rifles, Tom Gries desce da clássica e serena altura de E o Bravo Ficou Só (Will Penny, 1967), um dos melhores westerns das últimas safras. Mas nem por isso desanima os que começavam a admirá-lo e que ainda esperam vê-lo no quadro de realizadores que têm, além do necessário talento, a missão de manter a tradição do Western, o cinema americano por excelência.

 

100 Rifles (100 Rifles, 1969, 110')
Direção: Tom Gries
Roteiro: Clair Huffaker & Tom Gries, baseando-se num romance de Robert MacLeod
Música: Jerry Goldsmith
Elenco: Jim Brown, Raquel Welch, Burt Reynolds, Fernando Lamas, Dan O’Herlihy, Hans Gudegast

 

Este texto foi transcrito do número 22 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, julho/agosto de 1969, pp. 2-3)