Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

CARMILLA
Joseph Sheridan Le Fanu
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



CAPÍTULO TRÊS
UMA SINGULAR COINCIDÊNCIA

Nós seguimos o “cortejo” com a vista, até ele se perder rapidamente na floresta sombria. Logo, o ruído dos cascos dos cavalos e das rodas do veículo extinguiu-se no silêncio da noite.
Nada restou para nos assegurar que a aventura não tinha sido uma ilusão momentânea, a não ser a jovem, que, naquele exato instante, abriu os olhos, levantou a cabeça e olhou à sua volta. E ouvi sua voz muito doce perguntar, em tom de queixume:
– Onde está mamãe?
Nossa boa Madame Perrodon respondeu carinhosamente e acrescentou algumas palavras tranquilizadoras.
Em seguida, escutei a jovem indagar:
– Onde estou? Que lugar é este? – Depois, disse: – Não vejo a carruagem... E por que matska me deixou sozinha?
Madame Perrodon respondeu a todas as perguntas, à medida que eram feitas. Gradualmente, a jovem lembrou-se do acidente e ficou satisfeita ao ouvir que ninguém saíra ferido; e, quando soube que sua mãe a havia deixado a nossos cuidados, até a sua volta, uns três meses depois, chorou.
Eu ia consolá-la; porém, Mademoiselle De Lafontaine colocou uma mão em meu braço e falou:
– Não se aproxime. Uma pessoa de cada vez é o máximo com quem ela pode conversar, no momento. Qualquer pequena excitação poderia sobrecarregá-la.
“Logo que estiver confortavelmente na cama”, eu pensei, “irei fazer-lhe uma visita.”
Enquanto isso, meu pai mandou um criado procurar o médico, que morava a cerca de duas léguas; e um quarto estava sendo preparado para a jovem.
Nossa hóspeda levantou-se e, apoiando-se no braço de Madame Perrodon, caminhou vagarosamente pela ponte levadiça e entrou no castelo.
No hall, criados esperavam para recebê-la; e ela foi conduzida imediatamente até seu quarto.
O aposento que usamos geralmente como sala de visitas é comprido e tem quatro janelas, que se abrem – sobre o fosso e a ponte levadiça – para a floresta que já descrevi. A mobília é de antigo carvalho entalhado, com grandes armários e cadeiras estofadas de veludo carmesim de Utrecht. As paredes são forradas de tapeçarias (obedecendo a um costume antigo e bastante curioso, as figuras mostradas nessas tapeçarias são em tamanho natural; e os assuntos representados são a caça, a falcoaria e coisas alegres de modo geral) circundadas de grandes molduras douradas. Não é um cômodo muito suntuoso; entretanto, é bastante confortável. E ali sempre tomamos nosso chá, porque meu pai, com seu patriotismo usual, insiste em que a bebida nacional inglesa deve ser tomada regularmente com café e chocolate.
Papai e eu ficamos sentados lá naquela noite e, com as velas acesas, conversamos sobre o ocorrido.
Madame Perrodon e Mademoiselle De Lafontaine vieram fazer-nos companhia, deixando nossa hóspeda mergulhada em sono profundo e sob os cuidados de uma criada.
– Que você acha dela? – Perguntei, assim que Madame Perrodon entrou. – Vamos, fale!
– Simpatizei com ela – respondeu Madame Perrodon. – É talvez a mais linda criatura que já vi. É mais ou menos de sua idade, e tão meiga e fina.
– É realmente linda – concordou Mademoiselle De Lafontaine, que havia espiado durante um instante a jovem no quarto.
– E tem uma voz tão suave! – Acrescentou Madame Perrodon.
– Vocês repararam numa mulher que estava na carruagem e que não saiu? – Perguntou Mademoiselle De Lafontaine. – Ela ficou apenas olhando pela janela do veículo.
Não, nenhum de nós havia visto a tal mulher.
Então, Mademoiselle De Lafontaine a descreveu: era uma negra horrível, com uma espécie de turbante colorido na cabeça. Ela ficara o tempo todo junto à janela da carruagem, sorrindo desdenhosamente e arreganhando os dentes, enquanto observava, com seus olhos brilhantes, a jovem e sua mãe.
– Vocês notaram como os criados era um grupo de homens mal-encarados? – Indagou Madame Perrodon.
– Sim – respondeu meu pai. – Sujeitos mais feios nunca vi em minha vida. Espero que não assaltem a pobre senhora na floresta. No entanto, são inteligentes: colocaram a carruagem de pé num instante.
– Suponho que estavam cansados pela longa viagem – afirmou Madame Perrodon. – Seus rostos magros e sombrios denotavam isso. Mas nossa jovem hóspeda nos contará tudo a respeito, amanhã, se estiver suficientemente recuperada.
– Não creio que será possível – anunciou papai, com um sorriso misterioso e um gesto negativo de cabeça, dando a impressão de saber mais sobre o assunto do que nos contara.
Isso me deixou ainda mais curiosa a respeito da curta e grave conversa que ele e a senhora vestida de veludo preto haviam tido antes da partida da carruagem.
Quando ficamos sozinhos, pedi-lhe que me contasse o que a mulher lhe tinha dito. Não foi preciso pressioná-lo muito.
– Não há razão para que eu não lhe conte &ndash disse ele. &ndash Ela demonstrou certa relutância em deixar a filha sob nossos cuidados. Informou que, apesar de ser física e mentalmente sã, a moça está doente e nervosa.
– Que curioso ela ter dito isso! – Interrompi. – Não era necessário.
– De qualquer forma, ela disse. E, como você quer saber tudo o que se passou, vou lhe contar. Ela falou: “Estou fazendo uma longa e secreta viagem de vital importância.” E deu destaque à palavra “vital”. A seguir, concluiu: “Devo retornar dentro de três meses. Nesse ínterim, minha filha não deverá falar quem somos nós, nem revelar de onde viemos ou a razão de estarmos realizando esta viagem.”  Isso foi tudo que ela disse num Francês fluente. Quando pronunciou a palavra “secreta”, fez uma ligeira pausa, como se quisesse enfatizá-la. Durante todo o tempo, ficou com os olhos fixos nos meus. Depois, como você mesmo viu, partiu depressa. Só espero não ter feito uma tolice, ao prometer tomar conta da filha dessa senhora.
Da minha parte, eu estava radiante. Mal podia esperar para ver a jovem e poder conversar com ela, aguardando para isso a permissão do médico. Vocês, que vivem nas cidades, não fazem ideia de como é importante para nós, que vivemos em locais solitários, fazer uma nova amizade.
O médico só chegou por volta de uma hora da manhã; mas eu não havia conseguido ir para a cama e dormir, devido à excitação dos últimos acontecimentos.
Quando o médico desceu à sala de visitas, foi para dar notícias favoráveis de nossa hóspeda, que estava acordada e não sofrera nenhum ferimento. Portanto, minha visita não lhe faria mal algum.
Mandei, sem demora, uma criada perguntar se ela permitia que eu fosse visitá-la, por alguns minutos, em seu quarto.
A criada retornou dizendo que ela estava ansiosa para conversar comigo.
Vocês podem estar certos de que não demorei em prevalecer-me dessa permissão.
Nossa visitante estava acomodada em um dos mais belos aposentos do castelo. Ele era, talvez, um pouco solene. Havia uma melancólica tapeçaria defronte dos pés da cama, representando Cleópatra com as áspides sobre o peito. Nas paredes, viam-se outras cenas austeras e clássicas. Mas entalhes a ouro e cores vivas e variadas nas outras decorações do quarto compensavam a tristeza das velhas tapeçarias. Ao lado da cama, havia algumas velas acesas.
Nossa hóspeda estava realmente acordada e usava um roupão de seda macia. Esse roupão, com flores bordadas, sua mãe o atirara aos seus pés quando ela se encontrava deitada à beira da estrada.
Assim que me aproximei da cama, algo me deixou muda e me fez recuar um ou dois passos.
Foi o rosto da desconhecida. Ele era idêntico ao da moça que havia me “visitado” em minha infância.
Era um rosto bonito, ou melhor, belo. E reparei que tinha a mesma expressão melancólica de quando o vira naquela distante noite da minha infância.
– Que curioso! – Exclamou nossa hóspeda, quebrando o silêncio e dando um sorriso enigmático. – Há uns doze anos, vi seu rosto num sonho. Desde então, ele tem me assombrado.
– Realmente é muito curioso – falei, dominando com grande esforço a emoção que me deixara sem palavras. – Doze anos atrás, eu a vi. Só não sei se foi num sonho ou em carne e osso. Apenas sei que nunca mais esqueci seu rosto.
O sorriso da estranha suavizou-se. E tudo o que havia de enigmático nele desapareceu; e as maçãs do rosto, com suas covinhas, mostraram-se agradavelmente belas.
Senti-me tranquilizada. Dei à jovem, como a hospitalidade manda, as boas-vindas. Depois, disse-lhe o prazer que sua chegada tinha dado a todos nós. Por fim, revelei-lhe que estava muito feliz por estar ao seu lado.
Enquanto eu falava, segurei-lhe a mão. Sempre fui, como toda pessoa solitária, um pouco tímida; mas a situação me tornou eloquente, ousada. Ela apertou minha mão, deixando-a entre as suas; e seus olhos brilharam, quando, olhando diretamente dentro dos meus, sorriu mais uma vez e corou.
Sentei-me ao seu lado, ainda admirada. Nesse instante, ela retribuiu minhas boas-vindas e falou:
– Tenho de contar-lhe o sonho que tive com você. É por demais estranho que tenhamos tido um sonho tão nítido, um sonho em que cada uma de nós viu a outra com o aspecto que temos agora, embora na época fôssemos crianças. Uma noite, quando eu tinha cerca de seis anos de idade, despertei de um sonho confuso e perturbador; e encontrei-me num quarto totalmente diferente do meu. O aposento possuía paredes revestidas com uma madeira escura; e sua mobília compunha-se de armários, camas, cadeiras... e bancos. As camas estavam, segundo julguei, todas vazias; e não havia mais ninguém no quarto, a não ser eu. Após olhar à minha volta e admirar principalmente um castiçal de ferro com dois braços, rastejei por baixo de uma das camas, para chegar até a janela. Porém, quando saí de debaixo da cama, ouvi alguém chorar. Ainda de joelhos, olhei para cima e vi você. Era, sem dúvida, você. E com o mesmo aspecto de agora: uma linda jovem de cabelos dourados, grandes olhos azuis e uns lábios... Seu aspecto cativou-me. Ergui-me e deitei-me a seu lado, aconchegando-a junto a mim. Creio que adormecemos. Fui despertada por um grito. Era você que gritava. Assustada, escorreguei para o chão, onde perdi os sentidos. Ao voltar a mim, estava novamente em meu quarto. Seu rosto, desde aquela noite, nunca mais esqueci. Não posso estar enganada. Você é a moça que vi naquela ocasião.
Foi minha vez de relatar minha visão correspondente.
– Não sei qual de nós duas deveria ter mais medo da outra – disse ela, sorrindo com indisfarçável admiração, quando terminei meu relato. – Se não fosse tão bonita, acho que eu teria ficado com muito medo de você. Seja como for, parece-me que fomos destinadas, desde a infância, a ser amigas. Não sei se você se sente tão estranhamente atraída por mim como eu me sinto por você... Nunca tive uma amiga... Terei encontrado uma agora?
Nossa hóspeda suspirou, e seus belos olhos negros fixaram-se apaixonadamente em mim.
A verdade é que me sentia inexplicavelmente atraída pela linda desconhecida. Mas também sentia certa repulsa por ela. Todavia, nesse sentimento ambíguo, a sensação de atração prevalecia enormemente. Aquela jovem me interessava e me seduzia, e era tão bela e tão indescritivelmente insinuante... Percebi, então, algo de langor e de cansaço nela; e apressei-me em desejar-lhe boa-noite.
– O médico acha – acrescentei – que você deve ter a companhia de alguém esta noite e nas próximas. Até já providenciamos uma criada para ser sua acompanhante, e estou certa de que irá gostar dela.
– É muito amável de sua parte, mas eu não conseguiria conciliar o sono. Nunca consegui adormecer com alguém em meu quarto. E preciso confessar-lhe algo: tenho medo de ladrões. Nossa casa foi assaltada uma vez; e, na ocasião, dois serviçais foram assassinados. Por isso, sempre tranco minha porta. É um hábito, e vejo que a porta deste quarto tem chave.
Ela abraçou-me por um momento e sussurrou bem junto ao meu ouvido:
– Boa-noite, querida. É muito penoso separar-me de você. Mas, amanhã, não muito cedo, eu a verei novamente.
Soltando um suspiro, ela afundou a cabeça no travesseiro e, com um profundo e melancólico olhar, acompanhou-me. Depois, murmurou:
– Mais uma vez, boa-noite, minha querida amiga.
Eu estava honrada pela evidente – ainda que imerecida – afeição que ela revelava para comigo. Apreciei a confiança com a qual me recebera. Até parecia que já éramos grandes e velhas amigas.
O dia seguinte chegou, e nos encontramos novamente. Eu estava encantada com minha companheira.
Sua aparência não perdia nada à luz do dia. Aquela desconhecida era certamente a mais bela criatura que eu já vira...

 

continua no próximo número