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Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

ONDE ESTÁ BLONDIE?
(roteiro para uma história em quadrinhos)
Rubens Francisco Lucchetti
ilustração: Hajime Sorayama



PRIMEIRA PARTE

Q. 1 a 4 – Blondie, loura, sexy e exuberante, trajando lingerie e contracenando com galã, em set de filmagem.
TEXTO – Blondie, famosa estrela de Hollywood, está sendo apontada como uma das substitutas das grandes divas do passado.

Q. 5 e 6 – Sandra Bruno, repórter de televisão, falando com o microfone na mão, diante de um dos luxuosos hotéis de São Paulo. Na frente do hotel, uma grande aglomeração de garotas e rapazes.
SANDRA – Blondie é esperada a qualquer momento. E grande é o número de fãs que aguarda a superstar.
– O repórter Carlos Alberto está na Avenida Rubem Berta e tem mais notícias.
– É com você, Carlos Alberto!

Q. 7 – Limusine com vidros fumê na Avenida Rubem Berta. Ela é escoltada por batedores da PM e um cortejo de carros. As calçadas, com cordões de isolamento, literalmente tomadas por uma grande multidão que clama por Blondie. Carlos Alberto falando com microfone na mão.  Cameraman, ao seu lado, captando as imagens do público e do cortejo de carros.
CARLOS – Uma loucura! Um verdadeiro delírio! Uma apoteose como São Paulo jamais viu!
POVO – Blondie! Blondie! Blondie! Blondie!

Q. 8 – Interior da limusine. Mastodonte sentado ao lado do motorista. No banco de trás estão: Mark, um dos assessores do estúdio; Norma, secretária de Blondie, preocupada com a estrela; e Blondie (entediada), que está apoiada à porta do automóvel, dando as costas ao público entrevisto pelo vidro fumê da janela.
BLONDIE – Detesto fãs! São uma gentalha! Até me dá vontade de vomitar...
NORMA – Cuidado, Blondie! Não vá ter uma de suas enxaquecas!
MARK – Por Deus! Isso seria um desastre! As filmagens começam dentro de três dias!

Q. 9 – A limusine entrando na garagem subterrânea do hotel (o mesmo dos Q. 5 e 6). Cordões de isolamento mantêm os fãs afastados. Dois fãs, desmaiados, sendo socorridos. Alguns fãs choram, outros desmaiam.
FÃ – Eu te amo, Blondie!

Q. 10 – Um fã chorando, emocionado.
FÃ – Já posso morrer! Consegui tocar o carro onde está minha deusa! Que emoção, meu Deus!

Q. 11 e 12 – Uma longa mesa de reunião tomada por sisudos homens de negócio. Ao lado de cada um deles, graciosas e exuberantes secretárias fazendo anotações. Na cabeceira, mr. Norton, o produtor norte-americano (ele é gordo, calvo e tem um charuto no canto da boca), ladeado por duas secretárias (uma loura e uma morena). Cardoso, o produtor brasileiro, está sentado a um dos lados da mesa.
NORTON – Esta produção, orçada em trezentos milhões de dólares, é a mais ambiciosa até hoje realizada por um estúdio cinematográfico.
CARDOSO – E ficamos honrados por terem nos escolhido como co-produtores, mr. Norton.

Q. 13 – Norton voltando-se para Cardoso.
NORTON – Esperamos, señor Cardoso, não encontrar nenhum obstáculo burocrático ou de ordem técnica. Está tudo sob controle, señor Cardoso?
CARDOSO – Perfeitamente, mr. Norton. Eu mesmo cuidei pessoalmente de cada pormenor.
NORTON – Good, good.
SECRETÁRIA LOURA – Ele quer dizer que está bom, señor Cardoso.

Q. 14 – Sandra Bruno falando com o microfone na mão. Mais afastados, os fãs, aglomerados diante do hotel (o mesmo dos Q. 5 e 6).
SANDRA – O papel foi escrito especialmente para Blondie, que passou a infância no Brasil e domina perfeitamente o Português. Por ele, ela irá receber o maior cachê já pago a uma atriz.

Q. 15 – Imagem de Sandra Bruno (ela está falando com o microfone na mão) em vários monitores (alguns focalizando o público), na suíte da televisão.
SANDRA – O filme conta a história das peripécias de uma estrela americana que vem filmar no Brasil.

Q. 16 – Blondie (entediada), Norma e Mark na suíte presidencial, que está toda ornamentada com flores.
MARK – Espero que tudo esteja do seu agrado.
– Já providenciei que a água que lhe for servida seja a de Vichy.

Q. 17 – Mais ou menos o mesmo desenho do Q. 16.
BLONDIE – Quanto às tâmaras...?
MARK – Devem estar chegando. Mandei vir diretamente do Cairo.

Q. 18 – Mark afastando-se. Norma falando com Blondie, que está fazendo uma careta e um gesto displicente.
NORMA – Por que não vai até a janela e acena para os fãs? Eles estão querendo vê-la.
BLONDIE – Faça isso você mesma. Ponha uma peruca loura e óculos escuros, como já fez tantas vezes.

Q. 19 – Televisor mostrando moça-do-tempo falando e indicando a região Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo).
TEXTO – Mas nem tudo vai bem...
MOÇA – Na região Sudeste, tempo nublado e pancadas ocasionais de chuva.

Q. 20 – Norton falando com Cardoso.
NORTON – Vamos alterar nosso cronograma de filmagem. Vamos começar pelas seqüências de estúdio.
CARDOSO – Seqüências de estúdio...?!
NORTON – O.k.?
CARDOSO – O.k.

Q. 21 – No interior de um galpão, Cardoso conversando com o chefe de produção. Ao fundo, operários construindo cenário.
CHEFE – Mas como íamos adivinhar que choveria nesta época do ano? Não temos bola de cristal!
CARDOSO – E...?
CHEFE – Não faço a mínima idéia de quando os cenários ficarão prontos.

Q. 22 – Norton, a ponto de ter um ataque cardíaco, falando ao telefone. De cada lado de Norton, uma das secretárias: a loura segurando um copo de água; a morena, uma pílula.
NORTON – Você está querendo me dizer que os cenários não estão prontos? É isso?!
SECRETÁRIA MORENA – Cuidado, mr. Norton! O seu coração!

Q. 23 – Norton com a cabeça voltada para o alto e de boca aberta. A secretária loura amparando-lhe o queixo e com a outra mão segurando o copo de água, a secretária morena enfiando-lhe na boca a pílula.
SECRETÁRIA LOURA – Por favor, mr. Norton, controle-se!
SECRETÁRIA MORENA – Tome o seu remedinho, tome...

Q. 24 – Norton segurando o queixo com ambas as mãos, com os cotovelos apoiados na escrivaninha. Ele está com expressão de choro. A seu lado, as secretárias (uma de cada lado): a loura segurando o copo vazio, a morena acariciando-lhe a cabeça calva.
SECRETÁRIA MORENA – Acalme-se, mr. Norton.
SECRETÁRIA LOURA – Tudo se arranjará.
NORTON – E “ele” me disse que estava tudo sob controle...
SECRETÁRIA LOURA – E o senhor até falou “good, good”...

Q. 25 – Norton olhando para cima, para poder ver as duas secretárias. Está com expressão de quem pede socorro.
NORTON – E como vou dizer isso para Blondie?
SECRETÁRIA MORENA – Fale com a Norma, mr. Norton.
SECRETÁRIA LOURA – Ela saberá como falar com Blondie.

Q. 26 – Norton olhando para o leitor.
NORTON – Espero que saiba mesmo...

Q. 27 – Deitada, vendo televisão e comendo um bombom retirado de uma caixa enfeitada, Blondie. Norma falando ao telefone.
NORMA – Tudo bem, mr. Norton. O que não pode ser remediado, remediado está.

Q. 28 – Blondie olhando para Norma, enquanto segura um bombom a meio caminho da boca. Mark entrando com uma pilha de jornais e revistas.
BLONDIE – Que é que está remediado?
NORMA – A chuva pegou todos de surpresa, e as filmagens serão adiadas.
MARK – Aqui estão os jornais e as revistas que falam de você.

Q. 29 – Blondie fazendo careta. Mark colocando os jornais e as revistas sobre uma mesinha. Ao fundo, uma janela de sacada (aberta) deixando entrever, embaçados pela chuva, os edifícios do outro lado da rua.
BLONDIE – Estou pouco me lixando com o que estão falando. Esses jornalistas são umas topeiras, são incapazes de criar um texto original.
– Não dizem nada além do que estou careca de saber!

Q. 30 – Blondie colocando um bombom na boca. Som vindo do televisor, sem que se veja a imagem (o aparelho deve estar de lado).
SOM – E agora na Sessão Vesperal, O Lírio do Clube Noturno, um noir com a exuberante Blondie...
BLONDIE – E as fotos? Estou bonita nelas?

Q. 31 – Mark exibindo capa da revista COSMOPOLITA, que mostra close de Blondie fazendo boquinha de beijo e a manchete: A DEUSA DO SEXO VEM FILMAR NO BRASIL. Blondie rindo.
MARK – Veja por si mesma.
BLONDIE – Quando tirei essa foto em Paris, estava com diarréia.

Q. 32 – Blondie (sem demonstrar sua insatifação inicial), de pé, olhando (pela janela de sacada) a chuva que embaça as imagens escuras dos edifícios, cujos apartamentos estão iluminados. Norma, sentada à mesinha (a mesma do Q. 29), escrevendo num livro.
BLONDIE – Vou aproveitar essa chuva mais que providencial e o adiamento das filmagens para descansar.
– Esses últimos dias foram uma maratona.

Q. 33 – Norma, parada a meio caminho da janela de sacada, olhando para Blondie e segurando com as duas mãos contra o peito o livro (com o título AGENDA) em que esteve escrevendo. A cena é iluminada por um abajur de pé.
NORMA – Mas você está com a agenda cheia. Já amanhã, às dez horas, tem uma entrevista coletiva com a imprensa. E você sabe como mr. Norton gosta de tratar bem a imprensa.
BLONDIE – Por favor, Norma me poupe.
– Até amanhã, quero descansar.

Q. 34 – Norton, com expressão intrigada, conversando com Norma, sob os olhares atentos das duas secretárias.
NORTON – A Blondie recebeu o adiamento numa boa...?
NORMA – Vou mais além. Pareceu até que ela gostou.
NORTON – Essa não é a Blondie que eu conheço.
SECRETÁRIA LOURA – Ora, mr. Norton...
SECRETÁRIA MORENA – Se miss Norma está dizendo...

Q. 35 – Blondie, com expressão enigmática, sorrindo (pelo efeito da iluminação, esse sorriso torna-se diabólico).
BLONDIE – Minhas férias começam hoje...
TEXTO – Que será que ela quis dizer com isso?

Q. 36 – Blondie, com óculos escuros e cabeleira negra, espiando por porta entreaberta o corredor vazio e sombrio.
BLONDIE – Estou com sorte! Ninguém à vista!

Q. 37 e 39 – (Quadrinho vertical) – Corte dos andares com lances de escadas. Blondie carregando uma mochila de viagem e descendo os degraus.
BLONDIE – UUUH! Um pouco de exercício não faz mal a ninguém!

Q. 38 e 40 – (Quadrinho vertical) – Plano geral de garagem subterrânea com vários veículos. Blondie entrando num dos carros.
BLONDIE – Ainda bem que a porta não estava trancada.
– Não saberia abri-la...

Q. 41 – Detalhe das mãos de Blondie fazendo ligação direta, e balão emendado ao quadro anterior.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – ...mas ligação direta eu sei fazer!

Q. 42 – Carro de Blondie saindo da garagem subterrânea (a mesma do Q. 9) do hotel. Rua (molhada) refletindo a luz do farol do carro e de outros veículos que estão passando. Transeuntes com guarda-chuvas, vitrinas de lojas iluminadas.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Foi mais simples do que eu pensava.

Q. 43 – Carro de Blondie na Marginal do Tietê (com draga no rio, iluminado por uma lâmpada que difunde uma tênue e nostálgica luz), em meio a outros veículos. Chuva fraca.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Este deve ser o Rio Tietê.
– Muito diferente do Tâmisa e do Sena.

Q. 44 – Carro de Blondie na Via Anhangüera (mostrar placa com o nome da rodovia). No céu escuro, uma grande lua cheia.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Siga seu coração. O resto pouco importa.
TEXTO – É, talvez tenha razão, Blondie. Mas poucos podem fazer isso.

Q. 45 – Artur, homem de boa aparência e com mais ou menos 35 anos de idade, despedindo-se da esposa, dos dois filhos (um casal) e da sogra (mulher gorda e de rosto rechonchudo), diante de casa simples.
SÔNIA – Tenha juízo, Artur.
ARTUR – Ah, querida! Recomendação mais esdrúxula! Santa Rita é mais monótona e sem atrativos que o mostrador de um relógio.

Q. 46 – Artur, junto ao volante do carro. Sônia, a mulher de Artur, debruçada na janela do automóvel.
SÔNIA – Dirija com cuidado; e, quando chegar, telefone.
ARTUR – Este trecho de Ribeirão Preto a Santa Rita é um dos melhores da Anhangüera.

Q. 47 – Sogra, arrogante, destilando veneno. Carro de Artur afastando-se. Artur fazendo aceno com a mão. Os filhos, no meio da calçada, dando adeus.
FILHOS – Tchau, papai!
SOGRA – Como você é ingênua, filha! Não vê que ele tá com fogo no gambito?
SÔNIA – Que são três dias, mamãe?...
SOGRA – E ele tem empregados pra quê? Não poderia deixá-los tomando conta da oficina?
– Como você é ingênua, filha...

Q. 48 – Plano geral do interior do carro de Blondie, cujos faróis estão iluminando estrada secundária com placa indicando: SANTA RITA DO PASSA QUATRO.
BLONDIE (pensando) – Essa é a cidade onde nasceu Zequinha de Abreu, o compositor de “Tico-Tico no Fubá”. Recordo-me de que, quando morava no Rio, vi um filme sobre ele.

Q. 49 – Carro de Blondie enveredando pela estrada secundária.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – E por que não conhecê-la?

Q. 50 – Carro de Blondie passando pelo jardim central. Matriz com relógio marcando e batendo meia-noite.
RELÓGIO – BONG! BONG! BONG!
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Exatamente como vi no filme!
– Nem um tijolo a mais!

Q. 51 – Carro de Blondie em rua deserta.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Aqui a vida deve andar tão lenta e arrastada como os ponteiros de um relógio.
– Ah, Deus, aqui se vive!

Q. 52 – Carro com motor falhando.
RUÍDO – GROCK! GROCK! GROCK!

Q. 53 – Blondie, ao lado do carro (o capô do veículo está erguido), coçando a cabeça e olhando para o interior do motor.
BLONDIE – E agora?

Q. 54 – Carro de Artur parado ao lado do carro de Blondie. Artur está com a cabeça para fora da janela.
ARTUR – Está precisando de ajuda, moça?
BLONDIE – Sim. Parece que o motor pifou...

Q. 55 – Artur examinando o motor. Blondie olhando com interesse o que ele faz.
ARTUR – O problema é na parte elétrica...

Q. 56 – Artur limpando as mãos com um pedaço de estopa e falando com Blondie.
ARTUR – Mas só amanhã poderei consertá-lo na oficina.
BLONDIE – Tudo bem. Imagino que deve haver um hotel por aí.

Q. 57 – Artur dirigindo o carro e tendo a seu lado Blondie, que está com expressão alegre.
ARTUR – Tem um hotelzinho. Fica a três quarteirões.
– Na verdade, em Santa Rita, tudo fica a três quarteirões do centro.
BLONDIE – Maravilha! Estou encantada!

Q. 58 – Plano geral de rua (arborizada) com casas baixas e um prédio simples de dois andares com placa pendurada (na placa, os seguintes dizeres: LINA HOTEL). O carro de Artur a meio quarteirão do hotel, diante do qual há uma árvore.
ARTUR (voz vinda do interior do carro) – Você está passando por Santa Rita...
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Flanando. Passava lá na estrada e lembrei-me de que aqui é a terra do Zequinha de Abreu e quis conhecê-la.

Q. 59 – Recepção modesta com escaninho de madeira na parede. Blondie segurando a mochila de viagem e conversando com Artur, que lhe entrega um cartão. Um pouco afastada, Lina (mulher de meia-idade e com um casaco sobre a camisola) olhando, com ar intrigado, para o casal.
ARTUR – Eu me encarrego de rebocar seu carro.
– Como é mesmo seu nome?
BLONDIE – Maria.

Q. 60 – Blondie, junto à janela do seu quarto no segundo andar, olhando o cartão de Artur. A copa da árvore defronte ao hotel está quase ao alcance de sua mão.
BLONDIE – Até que ele é bem simpático.

Q. 61 – No quarto, Lina terminando de tirar o casaco. Mário, o marido, está deitado.
LINA – A Sônia viajou, e o safado...
MÁRIO – Deixe de imaginar coisas, mulher! O Artur é um cara sério.

Q. 62 – Lina deitada ao lado do marido.
LINA – Você precisa ver a mulher! Parece uma dessas artistas de novela!
MÁRIO – Vamos dormir, que temos de levantar cedo amanhã!

Q. 63 – Blondie falando com Artur (ele está de macacão), na oficina mecânica. Perto deles, três carros, um dos quais o de Blondie.
ARTUR – O problema está no motor de arranque. Preciso mandar buscar em Ribeirão Preto.
BLONDIE – Esta cidade é mesmo um encanto! Até uma simples peça de automóvel tem de ser importada!

Q. 64 – Artur olhando assustado para Blondie.
ARTUR – Você acha?! Acha mesmo?!

Q. 65 – Artur olhando intrigado para Blondie, que está sorrindo satisfeita.
ARTUR – Não entendo! Qualquer outra pessoa estaria aborrecida. Mas você parece que gostou...
BLONDIE – E não é pra gostar?
– Não percebe a maravilha que é a falta de progresso? É o paraíso na Terra!

Q. 66 – Artur conversando com empregado. Os dois estão próximos à bancada atravancada de peças e ferramentas.
ARTUR – É a mulher mais estranha que conheci. Parece que nasceu ontem. Está deslumbrada com o mundo.
EMPREGADO – É um bebê que eu gostaria de ter e cobrir de carinho.

Q. 67 – Blondie andando por ruas (arborizadas e ensolaradas) com casas simples. Transeuntes (bem interioranos) cumprimentando-a e olhando-a com curiosidade.
BLONDIE (pensando) – Como tudo isto é fantástico! Estarei vivendo um sonho?

Q. 68 e 69 – Plano geral de um grande terreno onde está erguido um circo. Ao lado do circo, protegidos por um alambrado, vários trailers-jaulas com animais. Crianças e adultos olhando. Diante do circo, um grande painel com lâmpadas ao redor e o letreiro: GRAN CIRCO PAN-AMERICANO. Blondie, com as duas mãos espalmadas na face, olhando cheia de admiração. Um velhinho, meio encurvado, apoiado a um guarda-chuva, olhando intrigado para Blondie.
BLONDIE – Um circo!!!
VELHO – Por que está assim admirada, moça?
BLONDIE – Porque o mundo pode ser um lugar bonito. Não acha?

Q. 70 – Velhinho olhando para Blondie com meio sorriso.
VELHO – Você é engraçada e também muito bonita, moça.

Q. 71 – Velhinho, parado, vendo Blondie afastar-se.
VELHO – Só que meio pirada.

Q. 72 – Blondie conversando com Artur, na oficina. Seu carro está com o capô fechado. Empregado terminando de polir a lataria do veículo.
ARTUR – Pronto, Maria. Seu carro está novo em folha.
BLONDIE – Sabe que estou adorando sua cidade?... Vou até ficar mais uns dias.

Q. 73 – Pessoas, em frente à banca de jornal, lendo os jornais que estão expostos com fotos de Blondie e manchetes sensacionalistas: BLONDIE RAPTADA! ESTRELA DE VINTE MILHÕES DE DÓLARES SUMIU!
TEXTO – Enquanto isso...

Q. 74 e 75 – Plano geral de estúdio. Uma enorme foto de Blondie ornamentando a alameda de entrada. No largo portão de entrada, uma guarita com guarda uniformizado. Sobre o portão o nome do estúdio: ALLIED ARTISTS. Ao fundo, a montanha com o letreiro: HOLLYWOOD. Balão saindo de um dos prédios da administração.
TEXTO – O seu sumiço, Blondie, também já chegou lá...
WHITNEY (voz vinda do interior do prédio da administração) – Como é que é?! Que você está me dizendo, Norton?! COM MIL DEMÔNIOS, NORTON!!!

Q. 76 – Norton, sentado à sua escrivaninha e ladeado pelas duas secretárias (a loura segurando um copo com água; e a morena, uma pílula), falando ao telefone.
NORTON – Estamos aguardando o contato dos seqüestradores...

Q. 77 – Sentado à sua escrivaninha, num amplo e luxuoso escritório com janela ao fundo, Whitney falando ao telefone. Sobre a escrivaninha uma placa com os dizeres: JOHN WHITNEY – PRESIDENTE. Pendurados pelas paredes, pôsteres de Blondie nas mais variadas poses.
WHITNEY – Faça o possível e o impossível, Norton! Pague o que for preciso!
– Sem a Blondie, estaremos arruinados! Falidos!

Q. 78 – Locutor falando junto à microfone de mesa, em estúdio de rádio.
LOCUTOR – O misterioso desaparecimento da superstar Blondie mobiliza todo o efetivo policial.

Q. 79 – Casal de apresentadores de telejornal sentado diante das câmeras.
APRESENTADORA – E a nossa repórter Sandra Bruno tem mais notícias sobre o rapto de Blondie. É com você, Sandrinha!

Q. 80 – Sandra Bruno falando para a câmera. Ela segura um microfone de mão e está diante do hotel (o mesmo dos Q. 5 e 6), onde também se encontra um batalhão de repórteres, cinegrafistas e uma multidão contida por cordões de isolamento e PMs.
SANDRA – Pelo que conseguimos apurar até o presente momento, os seqüestradores não fizeram nenhum contato com os produtores. O desaparecimento de Blondie continua sendo o maior mistério.
– A pergunta que todos fazem é uma só: ONDE ESTÁ BLONDIE?

Q. 81 – Blondie (entediada), no quarto de hotel, olhando o despertador (sobre o criado-mudo) que marca dez horas. Ao lado do despertador, um telefone.
BLONDIE – Dez horas, e uma bela noite. Um convite irresistível para um passeio.

Q. 82 – Blondie falando ao telefone e segurando o cartão que Artur lhe deu.
BLONDIE – Artur...?

Q. 83 – Empregado de macacão (o mesmo do Q. 72) atendendo ao telefone, num minúsculo escritório. Mesa atravancada com peças, caixas e um gato dormindo sobre um jornal.
EMPREGADO – O “seu” Artur está em casa. Anote o telefone...

Q. 84 – Mais ou menos o mesmo desenho do Q. 82.
BLONDIE – Telefonei para a oficina; e seu empregado, que está fazendo serão, informou seu telefone...

Q. 85 – Close de Artur falando ao telefone.
ARTUR – Maria?! Que surpresa...

Q. 86 – Outro ângulo de Blondie falando ao telefone.
BLONDIE – A noite está tão bonita, e uma lua cheia é convite para um passeio. Você topa?
ARTUR (voz vinda do telefone) – Lógico, estou esperando-a no final dessa rua do hotel.

Q. 87 – Blondie dirigindo o carro por rua deserta e iluminada por luzes mortiças vindas de postes. No final da rua, Artur fazendo sinal.
BLONDIE – Ele disse que iria me esperar no final da rua...
– Ah, lá está ele!

Q. 88 – Artur sentado ao lado de Blondie, no carro.
BLONDIE – Que estava fazendo? Espero não ter atrapalhado nenhum programa.
ARTUR – Está brincando? Aqui, em Santa Rita, o único programa mesmo é o da tevê ou ir ver a nova máquina de cortar frios do “seu” Borges...

Q. 89 e 90 – Plano geral de fachada de cinema com um grande painel de Blondie e cartaz de um filme estrelado por ela, UMA DEUSA DE BABY-DOLL. Fila quilométrica tomando toda a rua.
TEXTO – Aproveitando a publicidade gratuita, os cinemas exibem filmes estrelados por Blondie.

Q. 91 – Plano geral de pizzaria. Televisor exibindo um filme de Blondie (ela, seminua, glamourosa, contracenando com galã). Fregueses olhando extasiados. Em primeiro plano, casal de namorados.
TEXTO – O mesmo acontece com os canais de televisão.
NAMORADA – Que está olhando com essa cara de paspalho? Que ela tem que eu não tenho?

Q. 92 – Carro de Blondie na estrada. No céu, uma bonita lua cheia iluminando a paisagem.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Não imagina o quanto estou adorando este passeio. Mas aonde vamos?
ARTUR (voz vinda do interior do carro) – Tenho um sítio aqui perto.

Q. 93 – No interior de um carro, dois tipos mal-encarados: Fininho (magricela, de cara comprida e usando boné) dirigindo; e Polegar (baixinho, troncudo e de rosto gordo) limpando um revólver.
FININHO – Aqui perto tem um posto de gasolina, que, a esta hora, deve estar com a caixa registradora cheia.
POLEGAR – Então, vamos esvaziá-la!

Q. 94 – Carro de Blondie entrando em um posto de gasolina. Ao fundo, loja de conveniência exibindo placa com os dizeres: TOME AQUI SEU CAFEZINHO GRÁTIS.

Q. 95 – Carro dos marginais entrando no posto e parando atrás do carro de Blondie.

Q. 96 – Blondie e Artur tomando café na loja de conveniência. Um espelho, atrás do balcão, reflete o casal, o restante da loja e Fininho e Polegar (os dois bandidos estão entrando na loja).
BLONDIE – Adoro o café do Brasil...
ARTUR – Do Brasil?!
BLONDIE – É que viajei recentemente ao exterior e estava com saudades do nosso café.

Q. 97 – Vendedora (uma bonita mocinha de uniforme) olhando e sorrindo para os dois bandidos. Polegar fazendo menção de tirar o revólver.  Fininho segurando-lhe o braço.
POLEGAR (falando baixo – letras miúdas) – Que foi? Afinou?
FININHO (falando baixo – letras miúdas) – Veja quem está ali!... A sorte está do nosso lado!
POLEGAR – De que é que você está falando?

Q. 98 – Fininho, junto ao carro com a porta aberta, mostrando a Polegar jornal com fotos de Blondie e manchete: ONDE ESTÁ BLONDIE?
FININHO – Ela é essa tal de Blondie e vale milhões!
POLEGAR – Mas tem mesmo certeza de que é ela?
FININHO – E como não haveria de ter...?

Q. 99 – Carro dos bandidos, dirigido por Fininho, seguindo à distância o carro de Blondie.
POLEGAR (voz vinda do interior do carro) – Eu ainda acho que não deveríamos ter desprezado a grana do posto.
FININHO (voz vinda do interior do carro) – Você é mesmo um estúpido! Quer migalhas, quando podemos pôr as mãos em milhões!

Q. 100 e 101 – Paisagem (iluminada pela lua cheia) bonita e aprazível de sítio e rio: uma casinha pintada de branco e com cerca branca em torno dela; mais ao fundo, um galpão, tendo ao lado uma ponte de madeira em forma de meio arco. Blondie e Artur fora do carro. Ela está olhando para o rio, com as duas mãos espalmadas nas faces (numa pose característica dela), maravilhada.
ARTUR – Aí está! Gostou?
BLONDIE – Oh, isto é fantástico! Um momento único na vida!

Q. 102 – Blondie jogando os sapatos para o ar, começando a tirar a roupa e correndo na direção do rio. Artur indo atrás.
BLONDIE – Vou dar um mergulho!
ARTUR – Não, Maria! Não faça isso! Espere!

Q. 103 – Blondie sem a blusa. Artur segurando-a pelo braço, junto à margem do rio.
ARTUR – Não faça isso! Animais selvagens podem estar nas imediações!

Q. 104 – Blondie abraçando fortemente Artur e olhando assustada para os lados.
BLONDIE – Nossa! Leões, tigres! Esses  bichos me apavoram até fechados nas jaulas!

Q. 105 – Blondie (com expressão de encantamento), sem a blusa e descalça, abraçada a Artur, no interior de ampla sala mobiliada modestamente.
BLONDIE – Oh, que lugar mais romântico, querido!
ARTUR – Que bom que gostou.
– Não está com fome?
BLONDIE – Estou faminta. Mas, antes, gostaria de tomar um banho.

Q. 106 – Blondie, com as mãos nas faces, maravilhada diante de uma banheira.
BLONDIE – Oh, há quanto tempo não via uma dessas!
ARTUR – Não via uma banheira?!
BLONDIE – Não...!
– Deixei minhas coisas no porta-malas. Você pega pra mim, querido?

Q. 107 – Fininho e Polegar, parados na entrada do sítio, observando Artur pegar a mochila de viagem no porta-malas do carro.
POLEGAR – Eu ainda acho...
FININHO – Você não acha nada! Quem acha sou eu!

Q. 108 – Artur, sentado numa poltrona na sala, vendo uma revista. Sobre a mesa a mochila de viagem com a inscrição: American Airlines.
ARTUR (pensando) – Fica frio, Artur! A garota não é nada tímida.

Q. 109 – Artur (de olhos esbugalhados) olhando para uma página da revista aberta em suas mãos.
ARTUR – Mas que é isso?!!!

Q. 110 – Página da revista com foto grande de Blondie e a legenda: A DEUSA DO SEXO VEM FILMAR NO BRASIL.
BLONDIE (off) – Arturzinho, quer vir esfregar minhas costas?

Q. 111 – Artur, emocionado, olhando para Blondie, que sorri, nua na banheira cheia de espuma.
BLONDIE – Nunca viu uma mulher no banho?
ARTUR – Eu nunca vi uma estrela...

Q. 112 – Blondie erguendo-se (a espuma encobre parcialmente sua nudez) e enroscando-se no pescoço do atônito Artur.
BLONDIE – My dear...

Q. 113 – Artur e Blondie caindo na banheira, fazendo água e espuma saírem para fora.
ARTUR – UUUGH!

Q. 114 – Fininho e Polegar caminhando sorrateiramente em direção à casa.
FININHO – Devemos surpreendê-los, sem dar oportunidade de se defenderem... Está entendendo?
POLEGAR – Eu só acho... Não... não acho nada!

Q. 115 – Blondie, deitada, trajando um minúsculo baby-doll, que deixa à mostra as linhas perfeitas de seu corpo.
BLONDIE – Venha logo, my love, sua gatinha precisa de carinho.

Q. 116 – Artur, de costas para o leitor, deixando cair a toalha que traz presa à cintura. Blondie, ao fundo, deitada e de braços abertos, olhando-o extasiada.
BLONDIE – Venha, amor! Ame-me com perversão, como se fosse um animal selvagem!

Q. 117 – Artur dando um mergulho sobre o corpo de Blondie, que continua esperando-o de braços abertos.
FININHO (off) – Calma, aí, garanhão!

Q. 118 – Fininho e Polegar apontando revólveres para o casal. Blondie, apavorada, enroscada no corpo nu de Artur.
FININHO – Fiquem calmos, e ninguém vai se machucar!
POLEGAR – É isso! Ninguém vai se machucar!

Q. 119 e 120 – Telefonistas na central telefônica do hotel.
1ª TELEFONISTA – Um momento, mr. Mark.
2ª TELEFONISTA – Srta. Norma, mr. Whitney, de Hollywood, quer falar com mr. Norton.
3ª TELEFONISTA – Desculpe a demora, sr. Silva é que... Sei, o senhor tem toda a razão...
4ª TELEFONISTA – Rodrigo, vá até o aeroporto de Congonhas. Mr. Blackwood acaba de chegar dos Estados Unidos.

Q. 121 – Norton falando ao telefone e tendo a seu lado (uma de cada lado) as duas secretárias (a loura segurando um copo de água; e a morena, uma pílula).
NORTON – Já se fala em suicídio coletivo da diretoria? Inclua-me na lista, John.
SECRETÁRIA LOURA – Por Deus, mr. Norton!
SECRETÁRIA MORENA – Não diga uma coisa dessas!

Q. 122 – Polegar falando ao telefone público de posto de gasolina (o mesmo do Q. 94) e rindo cinicamente. Vendedora de uniforme (a mesma do Q. 97), um pouco afastada, olhando para Polegar.
POLEGAR – Um milhão de dólares pra devolver a estrela loira! Senão, a gente corta uma orelhinha dela... depois... a outra... He! He! He!

Q. 123 e 124 – Norma, assustada, falando ao telefone e anotando.
NORMA – N... Não, senhor raptor! Oh, meu Deus!
POLEGAR (voz vinda do telefone) – Isso mesmo, moça... Foi o que ouviu.
– Bom... depois a gente liga pra marcar o local onde devem deixar a grana!

Q. 125 – Polegar fazendo gracinha para a vendedora, que está junto à vitrina de doces. Ela replicando e fazendo careta.
POLEGAR – Você é o doce mais gostoso da loja.
VENDEDORA – Eu não te conheço, tampinha!

Q. 126 – Norma, com o papel na mão, falando com o exasperado Norton. As duas secretárias estão uma de cada lado do homem (a loura segurando um copo de água; e a morena, uma pílula).
NORTON – Sem as orelhas... Não! Não!
SECRETÁRIA LOURA – Cuidado, mr. Norton...

Q. 127 – Mark entrando na sala e encontrando a secretária morena enfiando a pílula na boca de Norton e a loura segurando-lhe o queixo e com o copo de água à altura da boca dele. Norma fazendo careta.
MARK – Blackwood acaba de chegar e convocou uma reunião com toda a produção.

Q. 128 e 129 – Sala de reunião (a mesma dos Q. 11 e Q. 12). Norton (com o dorso nu cheio de eletrodos), deitado numa maca, sendo assistido por um médico e uma enfermeira, que estão lhe tirando um eletrocardiograma. As duas secretárias em prantos. Junto à cabeceira, Blackwood (um sujeito dentuço, parecido com Jerry Lewis) falando com eloqüência para um grupo de homens, enquanto aponta, com uma vareta, um gráfico (num cavalete) com uma linha subindo verticalmente desde a parte inferior até a extremidade superior.
RUÍDO – TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM
BLACKWOOD – E devemos isso a este homem, autor de um dos maiores golpes publicitários da atualidade, comparável somente a um Orson Welles, que apavorou milhares de americanos com a radiofonização de A Guerra dos Mundos.

Q. 130 – Norton quase saltando da maca. O gráfico do aparelho de cardiologia alterado no máximo. As duas secretárias fazendo gestos como se quisessem acudir Norton e sendo impedidas pela enfermeira. O médico está socorrendo Norton.
NORTON – Putz... Não acredito! O que essa besta está falando?!
RUÍDO – TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM TUM

Q. 131 – Um dos presentes puxando Blackwood pelo paletó e falando-lhe junto ao ouvido.
HOMEM (falando baixo – letras miúdas) – Mas não é encenação! Blondie foi mesmo raptada!

Q. 132 – Blackwood olhando com expressão abobalhada e cara de choro para o leitor.
BLACKWOOD – UNNH?... Raptada...?
– Mas ninguém me falou!!!

Q. 133 – Blondie sem a peruca morena e de baby-doll. Artur nu, com uma almofada entre as pernas. Os dois com as mãos amarradas para trás e sentados (em cadeiras) na sala do sítio. Fininho (de pé) brincando com uma moeda.
ARTUR – Poderia ao menos deixar a gente se vestir.
FININHO – Vão ficar assim mesmo!

Q. 134 – Empregado da oficina (o mesmo dos Q. 72 e Q. 83) conversando com delegado, que segura o jornal com a foto de Blondie.
TEXTO – Enquanto isso...
DELEGADO – Tem certeza de que é a mesma mulher que esteve na oficina e que lhe telefonou?
EMPREGADO – Lógico, “seu” delegado! Quem esquece uma mulher como esta? Até a dona Lina, do hotel, pode confirmar!

Q. 135 – Delegado mostrando jornal para Lina.
LINA – É ela mesma! Só que usava uma cabeleira morena.

Q. 136 – Delegado, na calçada, olhando para uma casa modesta com porta e janela para a rua. No portão da casa vizinha, uma mulher exageradamente gorda observando, com curiosidade, o delegado. O carro da polícia está estacionado junto ao meio-fio.
VIZINHA – Não tem ninguém. Dona Sônia viajou.
– E o “seu” Artur saiu de noite e não voltou.

Q. 137 – Mulher conversando com o delegado.
VIZINHA – Não que eu fique espionando os vizinhos... Foi por puro acaso que vi o “seu” Artur sair. Estava bem arrumado e parecia bastante cauteloso.
DELEGADO – Por que “bastante cauteloso”?

Q. 138 – Artur caminhando rente ao muro, fugindo da claridade de um poste e refugiando-se na sombra de uma árvore.
TEXTO – “Ele olhava para os lados de um jeito tão estranho... Mas foi por puro acaso que eu o vi! Deus me livre ficar bisbilhotando casa alheia!”

Q. 139 e 140 – Plano geral da cidade de São Paulo ao crepúsculo.
TEXTO – O sol inclina-se no poente, deixando atrás de si mais um dia de negócios que impulsionam uma metrópole com suas riquezas e misérias... muito mais misérias...

Q. 141 e 142 – Artur conseguindo libertar as mãos das cordas.

Q. 143 – Escritório de Norma entulhado de policiais, que instalam uma parafernália. Policial conversando com Norma (ela está um tanto assustada).
POLICIAL – É importante que converse o máximo de tempo possível, para que possamos rastrear de onde a ligação está sendo feita.
NORMA – Está bem... Farei qualquer coisa para ajudar.

Q. 144 – Delegado conversando com Sônia (muito nervosa) e sua mãe, que está destilando ódio.
SÔNIA – Aquele desgraçado! Mal me deixou aqui, fugiu com essa sem-vergonha!
SOGRA – Eu bem que lhe avisei, filha. Artur não é homem pra você!

Q. 145 a 148 – Vários quadrinhos mostrando a cidade de Santa Rita invadida por turistas (com vestimentas berrantes, máquinas fotográficas dependuradas nos pescoços), repórteres de televisão, cameramen, vendedores ambulantes, circo fazendo passeata com animais enjaulados, banda de música com baliza, malabaristas etc. Sandra Bruno (com o microfone na mão) falando para a câmera.
SANDRA – A pacata Santa Rita foi tomada pela imprensa mundial e turistas; um verdadeiro pandemônio se instalou na cidade, quando se soube que Blondie esteve aqui.

Q. 149 – Grupo de turistas diante do Lina Hotel. Dona Lina, na porta, fazendo pose para fotógrafos. A guia turística explicando.
GUIA – Blondie se hospedou neste hotel...

Q. 150 – O grupo de turistas acotovelando-se e gritando no quarto onde Blondie se hospedou.
GUIA – E ela dormiu nesta cama...
1º TURISTA – Dou dois mil dólares pela cama!
2º TURISTA – Dou cinco mil!
3º TURISTA – Dou dez mil!

Q. 151 – Turistas brigando no quarto, disputando a cama (uns estão levando o colchão; alguns, os pés da cama; e outros, a cabeceira). A guia turística quase sendo pisoteada. Alguém está se atirando pela janela, na direção da árvore.
GUIA – GULP!
1º TURISTA – Eu tenho direito! Blondie é minha musa!
2º TURISTA – Eu peguei primeiro!

Q. 152 – Fininho falando com Polegar, enquanto joga moeda para cima. Ao fundo, sentados (em cadeiras) e com as mãos amarradas para trás, Blondie e Artur.
FININHO – Vou telefonar! Vou cuidar da grana! Fique aqui! E olho vivo!
POLEGAR – Deixa comigo, Fininho!

Q. 153 – Polegar brincando com a moeda, tentando imitar Fininho.
BLONDIE – Eu lhe dou um beijo, se você fizer igual ao seu amigo.
POLEGAR – Mesmo?! Então, veja...

Q. 154 – A moeda escapando da mão de Polegar e correndo para perto da cadeira onde Artur se encontra sentado. Blondie sorrindo de modo provocante.
BLONDIE – Nada de beijos...!
POLEGAR – Diabo de moeda! Vai ver como eu...

Q. 155 – Polegar, abaixado, tentando pegar a moeda. Artur dando-lhe uma violenta joelhada no queixo.
POLEGAR – UGH!

Q. 156 – Artur nu, de costas, ajoelhado atrás da cadeira de Blondie, desamarrando-a. Polegar esparramado no chão, desacordado.
ARTUR – Temos de fugir logo daqui!

Q. 157 – Blondie correndo em direção à porta. Artur, afobado, vestindo bermuda.
ARTUR – Rápido! Corra para o carro, Blondie!

Q. 158 – Fininho falando ao telefone público (o mesmo do Q. 122).
FININHO – Lembre-se bem das palavras que eu disse. E nada de polícia... Ou os dois seios da loura já eram!

Q. 159 – Norma, apavorada, colocando o fone no gancho. Policiais movimentando-se. Junto à aparelhagem instalada, um operador de som fazendo sinal positivo. Policial (o mesmo do Q. 143) falando com Norma.
NORMA – GULP! Deus do céu!...
POLICIAL – Parabéns! Você foi muito bem! Conseguimos localizar de onde veio a chamada.

Q. 160 – Artur dirigindo o carro (de Blondie) e tendo Blondie a seu lado.

Q. 161 – Carro de Fininho cruzando com o carro de Blondie.
BLONDIE (voz vinda do interior do carro) – Bom... Acho que conseguimos escapar!
ARTUR (voz vinda do interior do carro) – Sem querer ser desmancha-prazeres, olhe quem passou por nós!

Q. 162 – Imagem vista do alto. Carro de Fininho dando um cavalo-de-pau e levantando uma nuvem de pó.

Q. 163 – Artur olhando para o espelho retrovisor. Blondie abraçada a ele, excitada.
ARTUR – Aí vem ele!
BLONDIE – Vamos, meu herói, salve a mocinha!
ARTUR – Está esquecendo, Blondie?! Isto não é nenhum filme!

Q. 164 e 165 – Plano geral de campo de futebol (ao lado do GRAN CIRCO PAN-AMERICANO), onde está aterrissando um helicóptero com os dizeres: POLÍCIA SP. Grande nuvem de pó se erguendo do solo. O local está cheio de curiosos, repórteres de televisão, jornalistas, cameramen, vendedores ambulantes (o de churrasco está próximo de um fogareiro que solta uma nuvem de fumaça), malabaristas, cachorros, galinhas. Em primeiro plano, o delegado, todo empertigado, ladeado por dois PMs. Sandra Bruno, com o microfone na mão, espremendo-se entre os repórteres e falando para a câmera.
RUÍDO – VAPT! VAPT! VAPT!
ALTO-FALANTE – O Gran Circo Pan-Americano, em homenagem a Blondie, tem o prazer de informar que damas acompanhadas de cavalheiros não pagarão ingressos!
1º VENDEDOR – Aqui, o nutritivo churrasquinho!
2º VENDEDOR – Olha o churro recheado!
SANDRA – O próprio Secretário de Segurança está assumindo as investigações do rapto de Blondie...

Q. 166 – Secretário, ao lado do delegado, sendo assediado por grupo de repórteres e cinegrafistas, em meio aos curiosos (alguns fazendo poses, outros abanando a mão) que querem aparecer na tevê.
SECRETÁRIO – Por hora, nada posso adiantar a vocês, para não prejudicar as investigações.

Q. 167 – Sandra Bruno correndo atrás do Secretário, que, juntamente com o delegado, está sendo levado por seguranças. PM truculento intervindo e pondo a mão diante da câmera.
SANDRA – E sobre o...?
PM – Ele disse depois! E depois é depois!

Q. 168 e 169 – Grande caravana de viaturas policiais, seguida por carros, trailers, veículos de reportagem, caminhão (com jaulas de animais) do Gran Circo Pan-Americano e helicóptero da TV MUNDO. Em primeiro plano, um caboclo (com um pé sobre o travessão de uma porteira) tirando o chapéu de palha, coçando a cabeça, olhando para o helicóptero e tendo ao lado uma vaca malhada.
SIRENAS – ÓÓÓÓÓÓ!
RUÍDO – VAPT! VAPT! VAPT!
CABOCLO – Olha só aquilo! Que tontice será, Malhada?
VACA – MUUU!

 

continua no próximo número