Ano 3 - nº 10 - junho/setembro de 2011

A LEI A OESTE DO PECOS
Morris



Se por algum azar alguém for dar em Langtry, no Texas, lá encontrará uma velha cabana em ruínas, conservada como atração turística, trazendo a seguinte tabuleta: “JUIZ ROY BEAN – A LEI A OESTE DO PECOS – JUSTIÇA DE PAZ E CERVEJA GELADA.”
Era nesse barracão de madeira, servindo de bar e tribunal, que o juiz Roy Bean vendia sua cerveja e mantinha a ordem, por meio de um Código Civil que ele não usava nunca e de um Colt 45 que usava a toda hora.
É verdade que Roy Bean conhecia uns poucos termos legais, mas isso por ser assíduo freqüentador de tribunais (como réu!); e o lenço que trazia sempre amarrado ao pescoço escondia uma velha cicatriz deixada pela corda que deveria enforcá-lo.
Uma antiga balada popular conta como o juiz conduziu o processo quando o corpo de um homem morto num acidente foi descoberto. Durante o exame para averiguação de identidade, Bean descobriu um revólver e 41 dólares e 50 cents. Imediatamente confiscou a arma e aplicou ao defunto uma multa de US$ 41,50 por porte ilegal de arma...
As sentenças de Roy Bean não admitiam recurso. Mas era raro que o réu fosse condenado à prisão: sempre aparecia algum serviço para fazer e, segundo as instruções dadas por trás de um Colt, acabava sendo feito em tempo recorde.
O saloon-tribunal se chamava “The Jersey Lilly”, em nome à atriz inglesa Lillie Langtry, por quem Roy Bean era apaixonado. Um pintor de cartazes, culpado não se sabe de quê, foi condenado por Bean a fazer as tabuletas...
Seu saloon ficava perto da estrada de ferro, no lugar em que os trens paravam para se reabastecer de água. Os passageiros aproveitavam a parada de dez minutos para descer e ir correndo beber uma cerveja. Entretanto, na hora de voltar desabalado ao trem, em meio aos apitos da partida, azar do consumidor apressado que pagasse com uma nota de valor alto. Infalivelmente, Bean não tinha troco... Um dia, um viajante, que tinha pago sua cerveja de trinta cents com uma nota de vinte dólares, irritou-se com a demora do troco e chamou Roy Bean de ladrão. Bean se ofendeu e, assumindo seu papel de juiz, aplicou ao viajante uma multa de US$ 19,70 por insultos à “Lei a Oeste do Pecos”...
Outro meio que o juiz empregava para espantar os estraga-prazeres era o seu urso – bicho menos perigoso do que assustador –, capaz de pôr pra correr os mais teimosos.
É preciso, entretanto, acrescentar que, sob essa couraça de “duro”, nosso vendedor da lei engarrafada escondia um coração sensível ao arrependimento dos convictos que de fato mereciam uma segunda chance. Um dia ele condenou à forca um rapaz culpado de ter matado a tiros um cavalo durante uma briga (matar um cavalo era nessa época um crime imperdoável). Magnânimo, permitiu ao réu que escrevesse à sua mãe uma carta de despedida. Lendo a carta, o juiz voltou atrás na sentença e absolveu o condenado, dizendo: “Houve erro judiciário. Este novo depoimento prova com o preto no branco que o réu mirou no cavaleiro e não no cavalo, que portanto, morreu por acidente. O convicto fica perdoado. Assim o quis esta Corte. Dá-se por encerrada a audiência... Agora, cerveja para todos!”
Roy Bean foi mais que um vigarista simpático. Ele se tornou, em pé de igualdade com Buffalo Bill, Davy Crockett ou Wild Bill Hickok, um herói do folclore americano, um herói cujos feitos serão por muito tempo lembrados nas conversas ao pé do fogo.

 

Este texto foi transcrito do álbum O Juiz (Le Juge, tradução de Jorge Alexandre Faure Pontual, Rio de Janeiro, Bruguera, s. d., p. 2), de Morris